{"id":172,"date":"2025-12-16T10:30:00","date_gmt":"2025-12-16T13:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogecoar.institutoserbrasil.com.br\/?p=172"},"modified":"2026-01-05T17:42:41","modified_gmt":"2026-01-05T20:42:41","slug":"sonhos-de-telepatia-e-ocio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogecoar.institutoserbrasil.com.br\/index.php\/2025\/12\/16\/sonhos-de-telepatia-e-ocio\/","title":{"rendered":"Sonhos de telepatia e \u00f3cio"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\" style=\"font-size:18px\"><strong><em>Por Fabio Rubio Scarano<\/em><\/strong><br>Titular da C\u00e1tedra Unesco de Alfabetiza\u00e7\u00e3o em Futuros do Museu do Amanh\u00e3 e Professor Titular de Ecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.<\/h4>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\">Um personagem suspeito<\/h1>\n\n\n\n<p>N\u00e3o me utilizo de redes sociais nem do ChatGPT, o que me torna no m\u00ednimo um personagem suspeito para refletir sobre um tempo no qual o digital \u00e9 um imperativo. Entretanto, pe\u00e7o licen\u00e7a \u00e0s leitoras e aos leitores deste texto para faz\u00ea-lo, por sentir que tenho alguma legitimidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Digo isso por dois motivos. Em primeiro lugar, por n\u00e3o ser um absoluto iletrado digital. Aprendi a desfrutar do YouTube, especialmente de m\u00fasicas e filmes que me s\u00e3o caros, bem como de diversos portais de busca e de acesso livre ou comercial de artigos cient\u00edficos e livros. Alguns desses canais propagam at\u00e9 textos e v\u00eddeos meus, por vezes mesmo sem que eu saiba, o que eu acho bom. J\u00e1 aprendi at\u00e9 que meu celular sabe o que gosto de ler no notici\u00e1rio quando acordo: futebol, cinema e hor\u00f3scopo. Me utilizo tamb\u00e9m do WhatsApp e do correio eletr\u00f4nico, por\u00e9m, preciso revelar que a rela\u00e7\u00e3o com esses dois nem sempre se d\u00e1 de forma prazerosa (j\u00e1 tenho planos ambiciosos para reverter esse quadro!).<\/p>\n\n\n\n<p>Em segundo lugar, ainda que estrangeiro ao amplo universo das ferramentas digitais, eu as admiro. Decerto, mais pelo potencial que vejo nelas do que por seu uso contempor\u00e2neo. Minha admira\u00e7\u00e3o tem uma curiosa rela\u00e7\u00e3o com o tempo, por envolver um misto de nostalgia por leituras do passado, com sonhos acerca de estados futuros de bem-estar planet\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>De um lado, a digitaliza\u00e7\u00e3o me remete ao jesu\u00edta, fil\u00f3sofo franc\u00eas e otimista inveterado Teilhard de Chardin. Em meados do s\u00e9culo passado, de Chardin dizia que o r\u00e1dio e a televis\u00e3o tinham o potencial de nos conectar de tal forma, que talvez anteciparam o advento do misterioso poder da telepatia entre humanos, quem sabe vindo a gerar uma esp\u00e9cie de consci\u00eancia universal.<\/p>\n\n\n\n<p>De outro, admiro o digital e o tecnol\u00f3gico tamb\u00e9m pela possibilidade de propiciar futuros nos quais todos possam trabalhar menos e viver mais e melhor, como Bertrand Russell j\u00e1 dizia ser poss\u00edvel com a tecnologia dispon\u00edvel em 1932! Sempre me pergunto o que de Chardin diria se tivesse visto a internet, e o que Russell acharia da intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o realizamos esses potenciais, mas parece que andamos no sentido contr\u00e1rio a eles. O mundo virtual parece distribuir mais disc\u00f3rdia que harmonia e, ao inv\u00e9s de reduzir nossa carga e jornada de trabalho, a multiplica. Seria f\u00e1cil botar a culpa nesse homem branco de meia-idade chamado capitalismo, mas tenho para mim que o capitalismo tamb\u00e9m \u00e9 uma tecnologia. Tal qual os computadores, a internet, as redes sociais e a intelig\u00eancia artificial, o capitalismo \u00e9 operado por pessoas. Como dizia Heidegger, se n\u00e3o usamos a tecnologia para promover um mundo melhor, \u00e9 porque ainda n\u00e3o percebemos a sua ess\u00eancia. O problema, creio, \u00e9 nossa pr\u00f3pria esp\u00e9cie.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas voltemos \u00e0s duas possibilidades que me seduzem quando penso no tecnol\u00f3gico e no digital: a telepatia e o \u00f3cio.<\/p>\n\n\n\n<p>Associo a telepatia \u00e0 capacidade do amor sem palavras, da comunh\u00e3o, do entendimento, da compreens\u00e3o e da confian\u00e7a entre seres. Minha perspectiva sobre o \u00f3cio \u00e9 como a de Russell: o tempo livre junto a pessoas queridas, \u00e0 natureza, ou em alegre e reflexiva solitude, nos eleva, inspira, renova. Associo o \u00f3cio \u00e0 paz.<\/p>\n\n\n\n<p>Vejo no digital, tecnol\u00f3gico, virtual, ve\u00edculos para a paz e o amor, mas n\u00e3o creio que encontremos esses sentimentos desej\u00e1veis &#8220;dentro&#8221; dessas m\u00e1quinas. N\u00e3o aposto em achar nem paz nem amor no mundo digital ou virtual, mas esse mundo em tese poderia me fazer ganhar tempo para eu poder achar a paz e o amor no mundo natural. Contudo, n\u00e3o o faz porque, como sociedade, n\u00e3o o usamos como meio, mas como fim.<\/p>\n\n\n\n<p>Em reflex\u00e3o, acho que talvez seja isso que me leva a n\u00e3o dedicar tempo hoje a ingressar nessas ferramentas e lidar com elas. Leitora, leitor, note, por favor, que, de forma alguma, isso \u00e9 uma recomenda\u00e7\u00e3o para voc\u00ea abandonar suas redes. \u00c9 mais uma admiss\u00e3o de covardia minha, ou pregui\u00e7a, ou medo at\u00e9. Eu deveria, talvez, mergulhar nesse mundo virtual e tentar ajud\u00e1-lo a nos ajudar, e a me ajudar, a encontrar nossos caminhos de paz e amor \u2014 como humildemente tento fazer no mundo natural. Quem sabe desenvolvendo este texto eu me anime?<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os dois imperativos dos tempos p\u00f3s-normais<\/h2>\n\n\n\n<p>Meu objetivo aqui, ent\u00e3o, \u00e9 discutir como percebo a rela\u00e7\u00e3o do digital e do virtual com a paz e o amor. Para isso, sinto que \u00e9 necess\u00e1rio tratar tamb\u00e9m de dois outros conceitos complexos: o tempo e a realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Vivemos em tempos de &#8220;p\u00f3s-tudo&#8221;. P\u00f3s-verdade, p\u00f3s-humano, p\u00f3s-moderno, p\u00f3s-desenvolvimento e outros &#8220;p\u00f3s&#8221; parecem criar uma cerca ao redor de uma dada parte da realidade e a rotular como algo passado. Recorrer a este prefixo se tornou cada vez mais comum, especialmente a partir da publica\u00e7\u00e3o, em 1979, do livro&nbsp;<em>La Condition Postmoderne<\/em>, de Jean-Fran\u00e7ois Lyotard (1924-1998). O &#8220;p\u00f3s&#8221; sugere transi\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o a algo que ainda \u00e9 desconhecido, ou mesmo incerteza na descri\u00e7\u00e3o de uma situa\u00e7\u00e3o presente. Seu uso, portanto, remete a uma certa indefini\u00e7\u00e3o ou imprecis\u00e3o temporal.<\/p>\n\n\n\n<p>Para alguns, atravessamos um tempo &#8220;p\u00f3s-normal&#8221;. O termo, cunhado pelos fil\u00f3sofos Silvio Funtowicz e Jerome Ravetz em 1991, diz respeito a tempos de transi\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o a um futuro desconhecido e que s\u00e3o marcados por caos, contradi\u00e7\u00f5es e complexidade. Estes autores ainda afirmam que, em tais tempos, os fatos s\u00e3o incertos, os valores est\u00e3o em disputa, os interesses s\u00e3o altos e as decis\u00f5es urgentes.<\/p>\n\n\n\n<p>A condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-normal \u00e9 como n\u00f3s experimentamos as mudan\u00e7as que se desenrolam ao longo do tempo p\u00f3s-normal que, por sua vez, \u00e9 concomitante com a emerg\u00eancia e a onipresen\u00e7a da cultura digital. Tal cultura tornou a digitaliza\u00e7\u00e3o um imperativo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em paralelo, este tempo \u00e9 marcado tamb\u00e9m pela contradi\u00e7\u00e3o que representa a incompatibilidade entre a nossa busca por conforto material e as consequ\u00eancias socioecol\u00f3gicas disto vir a ser alcan\u00e7ado por uma parte ou por toda a humanidade. Dessa contradi\u00e7\u00e3o emerge o imperativo da sustentabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois imperativos \u2014 o da digitaliza\u00e7\u00e3o e o da sustentabilidade \u2014 possuem contornos de valor e \u00e9tica, ao mesmo tempo que se fazem presentes na pol\u00edtica e na ci\u00eancia. Entretanto, apresentam tamb\u00e9m as suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es internas.<\/p>\n\n\n\n<p>A vis\u00e3o hegem\u00f4nica moderna assume a sustentabilidade como sendo um ponto de chegada de um determinado tipo de desenvolvimento, isto \u00e9, trata a sustentabilidade como &#8220;desenvolvimento sustent\u00e1vel&#8221;. Ao encampar premissas capitalistas, o desenvolvimento sustent\u00e1vel contrasta com vis\u00f5es n\u00e3o desenvolvimentistas ou de &#8220;p\u00f3s-desenvolvimento&#8221; (mais um &#8220;p\u00f3s&#8221;), sejam elas de origem tradicional (buen vivir, ubuntu, tek\u00f3 por\u00e3 etc.) ou p\u00f3s-moderna (ecofeminismo, ecossocialismo, decrescimento etc.).<\/p>\n\n\n\n<p>No campo da digitaliza\u00e7\u00e3o, enquanto a internet, as redes sociais e a intelig\u00eancia artificial t\u00eam demonstrado potencial democr\u00e1tico e emancipat\u00f3rio, respondem tamb\u00e9m pelo espalhamento de fake news, economia da aten\u00e7\u00e3o e formas extremistas de viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, os dois imperativos possuem tamb\u00e9m m\u00faltiplos pontos de converg\u00eancia. Por um lado, uma digitaliza\u00e7\u00e3o efetiva pode ter impactos positivos sobre algumas das crises atuais, ao permitir redu\u00e7\u00e3o na emiss\u00e3o de gases estufa por deslocamentos a\u00e9reos ou terrestres, ao facilitar mapeamento e manejo desde genes, at\u00e9 esp\u00e9cies e ecossistemas, ou ainda ao gerar sistemas de alarme que antecipam a ocorr\u00eancia de desastres naturais e clim\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, aten\u00e7\u00e3o a aspectos de sustentabilidade individual incluem uso moderado e sens\u00edvel de ferramentas digitais: a sustentabilidade nas rela\u00e7\u00f5es sociais pode ser favorecida por um bom uso de ferramentas digitais e a sustentabilidade ambiental pode se beneficiar de compartilhamento democr\u00e1tico de dados e informa\u00e7\u00f5es acerca do tema por meios digitais.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez caiba a pergunta: pode a biotecnosfera, com seus imperativos digitais e de sustentabilidade, funcionar de forma a dar origem a futuros de paz e amor?<\/p>\n\n\n\n<p>Quando nos deparamos com mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, perda da biodiversidade, crise de refugiados, crise sanit\u00e1ria, inseguran\u00e7a alimentar e h\u00eddrica, nada leva a crer que a resposta para esta pergunta possa ser sim. Esses e outros sintomas do presente s\u00e3o megatend\u00eancias para futuros nada auspiciosos. Futuros prov\u00e1veis sufocam os futuros desej\u00e1veis. Bauman diagnosticou isso como &#8220;fim do futuro&#8221;, uma atrofia na nossa capacidade de sonhar e imaginar futuros desej\u00e1veis. O presente coloniza o futuro. A imagina\u00e7\u00e3o padece.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A biotecnosfera e o p\u00f3s-humano<\/h2>\n\n\n\n<p>Se o imperativo da sustentabilidade nos leva a refletir sobre a biosfera, o da digitaliza\u00e7\u00e3o evoca a tecnosfera. A tecnosfera emerge da biosfera, e essa esfera das coisas constru\u00eddas pelo ser humano dever\u00e1, em breve, superar em peso o da biomassa natural viva. A noosfera, esfera da consci\u00eancia e do conhecimento, tamb\u00e9m emerge da biosfera, e hoje \u00e9, em certa medida, armazenada e disseminada pelo componente digital da tecnosfera.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>A analogia de Hub Zwart me parece assustadoramente adequada a este contexto: ele afirma que a internet \u00e9 o sistema nervoso central da noosfera.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A internet, a intelig\u00eancia artificial e outros recursos digitais s\u00e3o mat\u00e9ria abi\u00f3tica transformada em sistemas de pensamento mec\u00e2nicos com os quais a consci\u00eancia humana se torna cada vez mais entrela\u00e7ada. A noosfera, portanto, se amplia: n\u00e3o \u00e9 mais s\u00f3 uma propriedade que emerge da biosfera, mas \u00e9 principalmente uma express\u00e3o da biotecnosfera. O sistema nervoso central da biotecnosfera \u00e9, ao menos em parte, digital, e \u00e9 tamb\u00e9m o local de disputa de diferentes desejos.<\/p>\n\n\n\n<p>A psicosfera do ge\u00f3grafo Milton Santos (1926-2001) \u00e9 a parte da noosfera relacionada ao territ\u00f3rio e, logo, \u00e0 cultura. Para ele, \u00e9 onde o sentido \u00e9 produzido, uma esfera de ideias e a\u00e7\u00f5es intersubjetivas. Num dado territ\u00f3rio, a psicosfera \u00e9 composta por uma racionalidade hegem\u00f4nica e por racionalidades alternativas que disputam a tecnosfera, e \u00e9 justamente desta disputa que futuros distintos podem emergir localmente e globalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Tais racionalidades alternativas s\u00e3o uma forma de resist\u00eancia \u00e0 l\u00f3gica hegem\u00f4nica e ao uso puramente instrumental e voltado para o lucro da tecnologia. Por exemplo, notamos durante a pandemia uma onda de expans\u00e3o digital de movimentos de sustentabilidade e resist\u00eancia socioecol\u00f3gica que se contrapunha \u00e0s for\u00e7as hegem\u00f4nicas modernas. Reflexo do horror imposto pela doen\u00e7a e tamb\u00e9m do cen\u00e1rio pol\u00edtico no Brasil entre 2019 e 2022, as pessoas procuravam alternativas atrav\u00e9s de di\u00e1logos que agregassem vis\u00f5es m\u00faltiplas acerca da vida e da sustentabilidade. Esse exemplo refor\u00e7a a necessidade de expans\u00e3o da capacidade digital, que vai al\u00e9m de usar ferramentas e acessar mais fontes de informa\u00e7\u00e3o, se voltando tamb\u00e9m para compreender uma sociedade cada vez mais algor\u00edtmica.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois imperativos, portanto, s\u00e3o marcos da nossa condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-normal. S\u00e3o evid\u00eancias de expans\u00e3o de uma realidade anterior, que hoje, ao olharmos para tr\u00e1s, era a nossa refer\u00eancia de &#8220;normal&#8221; (mesmo que concordemos que n\u00e3o existe tal coisa quanto a normalidade).<\/p>\n\n\n\n<p>Neste instante talvez caiba a pergunta: pode a biotecnosfera, com seus imperativos digitais e de sustentabilidade, funcionar de forma a dar origem a futuros de paz e amor?<\/p>\n\n\n\n<p>Quando nos deparamos com mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, perda da biodiversidade, crise de refugiados, crise sanit\u00e1ria, inseguran\u00e7a alimentar e h\u00eddrica, nada leva a crer que a resposta para esta pergunta possa ser sim. Esses e outros sintomas do presente s\u00e3o megatend\u00eancias para futuros nada auspiciosos. Futuros prov\u00e1veis sufocam os futuros desej\u00e1veis. Bauman diagnosticou isso como &#8220;fim do futuro&#8221;, uma atrofia na nossa capacidade de sonhar e imaginar futuros desej\u00e1veis. O presente coloniza o futuro. A imagina\u00e7\u00e3o padece.<\/p>\n\n\n\n<p>Como disse um dos personagens de Jean-Luc Godard no filme&nbsp;<em>Adeus \u00e0 linguagem<\/em>&nbsp;(2014), quando n\u00e3o se tem imagina\u00e7\u00e3o, refugia-se na realidade. Mas o que \u00e9 a realidade, afinal? Talvez seja mais f\u00e1cil dizer o que ela n\u00e3o \u00e9. A realidade n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tica. Ela \u00e9 inacabada e, como o universo, est\u00e1 em cont\u00ednua expans\u00e3o. O novo real brota de processos de inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A inova\u00e7\u00e3o se d\u00e1 at\u00e9 na evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica. A fotoss\u00edntese talvez seja a maior inova\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria do universo, por ter permitido a expans\u00e3o da diversidade biol\u00f3gica sobre o planeta. Entre seres humanos, a inova\u00e7\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 quando algu\u00e9m tem uma ideia brilhante ou cria o pr\u00f3ximo software, mas quando o comportamento muda, quando a socioecologia se transforma.<\/p>\n\n\n\n<p>Em dire\u00e7\u00e3o ao novo normal, a inova\u00e7\u00e3o n\u00e3o estar\u00e1 nos novos aparatos digitais que venhamos a desenvolver, mas em como e para que os usaremos. Na nossa fus\u00e3o com a tecnologia, j\u00e1 somos p\u00f3s-humanos. Para que isso possa vir a ser uma boa not\u00edcia, ainda s\u00f3 depende de n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A \u00e9tica do cuidado como utopia<\/h2>\n\n\n\n<p>O que procuramos no mundo virtual? Tiro pela minha pequena experi\u00eancia nesse campo. Como mencionei anteriormente, tenho textos e v\u00eddeos nessas m\u00eddias. Cedo aprendi que h\u00e1 uma contabilidade de p\u00fablico, de quem gostou e quem n\u00e3o gostou, eventualmente h\u00e1 espa\u00e7o at\u00e9 para cr\u00edticas. Uma vez que meu par\u00e2metro \u00e9 a ci\u00eancia especializada, na qual s\u00f3 quem o l\u00ea \u00e9 tamb\u00e9m especialista no mesmo tema que voc\u00ea, qualquer uma ou duas dezenas de leitores ou espectadores nos ve\u00edculos digitais j\u00e1 me deixava alegre! Hoje sei que isso \u00e9 pouco.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, h\u00e1 um certo tipo de recompensa instant\u00e2nea, fugaz, no virtual, que se alimenta da esperan\u00e7a de se tornar perene. Da\u00ed suponho que, por um lado, muitos dos que usam essas ferramentas querem aumentar sua popularidade, ser notados, talvez ser amados. Seria uma expans\u00e3o da ontologia da pessoa atrav\u00e9s de uma outra persona, um avatar digital, que serve como alternativa \u00e0quela persona &#8220;real&#8221;, cuja ontologia muitas vezes foi travada pelo massacre do presente.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, na vontade de ser &#8220;diferente&#8221;, persiste o &#8220;igual&#8221;, como argumenta Byung-Chul Han. O sul-coreano radicado na Alemanha vai al\u00e9m e v\u00ea no &#8220;enxame digital&#8221; uma \u00e2nsia pelo espet\u00e1culo em que, quer seja do ponto de vista do exibidor ou do espectador, falta a dist\u00e2ncia que o respeito imp\u00f5e. \u00c9 como uma telepatia que deu errado por falta de amor. A falta de respeito, segue ele, leva ao esc\u00e2ndalo, que por sua vez \u00e9 o avesso da paz.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas sigo achando que estes aspectos negativos s\u00e3o revers\u00edveis, baseado no outro imperativo, o da sustentabilidade.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Leonardo Boff nos lembra que essa palavra vem do latim &#8220;sustentare&#8221;, que significa cuidar. Sustentabilidade, mais que qualquer uma das &#8220;sopas de letrinhas&#8221; que o capitalismo inventou (como CSR e ESG), \u00e9 uma \u00e9tica fundamentada no cuidado consigo mesmo, com o pr\u00f3ximo e com o mundo que nos cerca.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>O tal &#8220;respeito&#8221;, ao qual Han se refere. Como vimos, a sustentabilidade hoje tornou-se um imperativo diante dos males causados pelo Antropoceno. Este imperativo, por\u00e9m, est\u00e1 presente na psicosfera na forma de uma racionalidade hegem\u00f4nica (a sustentabilidade como uma esp\u00e9cie de \u00faltimo suspiro do capitalismo, que se tornar\u00e1 rent\u00e1vel e lucrativa a quem aplic\u00e1-la) e de racionalidade alternativas (baseadas em vis\u00f5es n\u00e3o modernas do mundo, que abrem m\u00e3o do crescimento econ\u00f4mico como premissa, e seguem minorit\u00e1rias).<\/p>\n\n\n\n<p>Se tal \u00e9tica do cuidado \u00e9 aplicada \u00e0 digitaliza\u00e7\u00e3o, pode resultar na expans\u00e3o de uma racionalidade alternativa, menos preocupada com lucro, poder e espet\u00e1culo, e mais voltada para um projeto de paz atrav\u00e9s de comunica\u00e7\u00e3o e uso democr\u00e1tico e amoroso.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns ir\u00e3o, acertadamente, dizer que esta vis\u00e3o \u00e9 &#8220;ut\u00f3pica&#8221;. \u00c9 mesmo. Contudo, acho uma pena que o adjetivo venha sendo mais frequentemente atribu\u00eddo \u00e0 falta de pragmatismo ou a devaneios irreais ou surreais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Utopia n\u00e3o \u00e9 sobre o que funcionar\u00e1, mas sobre uma alteridade radical<\/strong>, sobre transcender o mundo como o conhecemos e sobre confrontar o senso comum. \u00c9 sobre expandir a ontologia do real. A utopia \u00e9 emancipat\u00f3ria, concreta e aberta, na medida em que n\u00e3o est\u00e1 conclu\u00edda, est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o, como a vida e o pr\u00f3prio universo.<\/p>\n\n\n\n<p>O futuro que combina sustentabilidade e digitaliza\u00e7\u00e3o a partir de uma \u00e9tica do cuidado n\u00e3o \u00e9 &#8220;um bom lugar&#8221; (eutopia) mas um &#8220;n\u00e3o-lugar&#8221; (outopia), ou seja, \u00e9 uma b\u00fassola, uma orienta\u00e7\u00e3o, um desejo. Para que o novo normal que emergir\u00e1 no tecido inef\u00e1vel do tempo seja de bem-estar para todos os seres vivos e n\u00e3o-vivos, assim como para aqueles humanos e n\u00e3o-humanos que ainda vir\u00e3o a viver, precisamos de fato desejar. O desejo \u00e9 nutrido pela imagina\u00e7\u00e3o e pela esperan\u00e7a ativa, a mesma que nos faz acordar a cada dia e atuar para que o mundo se torne melhor.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Palavra de precau\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Apesar da minha esperan\u00e7a de que a digitaliza\u00e7\u00e3o, e a tecnologia de modo geral, possam ganhar melhor uso, cabe aten\u00e7\u00e3o a um aspecto adicional.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O fil\u00f3sofo italiano Giorgio Agamben relembra que Gaia, a deusa grega da Terra, abrange o campo da vida, do solo \u00e0 atmosfera. A viva, florida e luminosa superf\u00edcie de Gaia, por\u00e9m, contrasta com a escurid\u00e3o e com o abissal subterr\u00e2neo, dom\u00ednio de deusas e deuses ct\u00f4nicos, mais sombrios.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Gaia hoje se v\u00ea com n\u00edveis sem precedentes de degrada\u00e7\u00e3o e polui\u00e7\u00e3o justamente pelo fato de o ser humano extrair elementos e energia para suprir suas necessidades de consumo do subterr\u00e2neo ct\u00f4nico. Agamben chama esta casa do petr\u00f3leo e dos min\u00e9rios de&nbsp;<strong>tanatosfera<\/strong>, a esfera dos mortos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Amaz\u00f4nia, Davi Kopenawa Yanomami tem leitura an\u00e1loga, e projeta que a explora\u00e7\u00e3o subterr\u00e2nea pode implicar na queda do c\u00e9u. N\u00e3o \u00e9 demais lembrar que a tecnologia digital \u00e9 produzida a partir do que se extrai das profundezas ct\u00f4nicas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Assim, h\u00e1 que se cuidar e se respeitar as divindades ct\u00f4nicas, assim como as terrestres e as celestiais<\/strong>&nbsp;\u2014 sejam das culturas que forem \u2014, mesmo quando nossa busca for pelo amor e pela paz, ou pela boa telepatia e pelo bom \u00f3cio.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fabio Rubio Scarano, Titular da C\u00e1tedra Unesco de Alfabetiza\u00e7\u00e3o em Futuros do Museu do Amanh\u00e3 e Professor Titular de Ecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":459,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[20,14,21,19],"class_list":["post-172","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ecoar-vento","tag-inovacao-social","tag-sustentabilidade","tag-tecnologia-e-meio-ambiente","tag-tecnologia-e-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogecoar.institutoserbrasil.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/172","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogecoar.institutoserbrasil.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogecoar.institutoserbrasil.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogecoar.institutoserbrasil.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogecoar.institutoserbrasil.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=172"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/blogecoar.institutoserbrasil.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/172\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":470,"href":"https:\/\/blogecoar.institutoserbrasil.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/172\/revisions\/470"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogecoar.institutoserbrasil.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/459"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogecoar.institutoserbrasil.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=172"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogecoar.institutoserbrasil.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=172"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogecoar.institutoserbrasil.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=172"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}