Por Carlos Eduardo Frickmann Young
Professor Titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
“Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar”
(Paulinho da Viola, “Timoneiro”)
1. Introdução: valor é muito mais que preço
É muito comum encontrarmos situações nas quais bens e serviços ambientais, providos gratuitamente pela natureza, são tratados como “sem valor” porque não têm preços associados a eles. Trata-se de um erro grave, mas inúmeras vezes repetido, inclusive na tomada de decisões, que acaba menosprezando a importância dos bens e serviços que não são resultantes de um processo antrópico de produção. Isso inclui as florestas, a atmosfera, a biodiversidade e, claro, o oceano.
Para evitar esse equívoco e compreender o valor do oceano, antes de mais nada, é preciso diferenciar os conceitos de preço e valor.
Valor, segundo a teoria econômica, é um conceito pessoal, subjetivo e temporal, que reflete a importância que um indivíduo atribui a alguma coisa em um determinado momento. Por isso, o valor atribuído às coisas tem cunho cultural: varia de indivíduo a indivíduo, e pode também mudar para um mesmo indivíduo ao longo do tempo.
Já o preço de mercado é uma medida objetiva e universal (ao menos dentro do contexto de cada mercado) que reflete o quanto o indivíduo vendedor exige receber de “comando social” (poder de troca) como compensação para passar o direito de propriedade ou uso de um bem para o indivíduo comprador.
Do ponto de vista de quem compra o bem, só faz sentido pagar um montante se o benefício (“utilidade”, no linguajar dos economistas) desse bem superar o sacrifício de “comando social” de que o comprador abre mão para adquirir o bem em questão. Por isso, pode-se dizer que o preço reflete o valor mínimo do bem, pois se alguém voluntariamente pagou esse preço para adquirir o bem, é porque o bem vale (tem importância) de pelo menos esse valor. Ou seja, o preço estabelece o patamar mínimo do valor do bem, mas nunca seu valor pleno.
Isso é relevante porque há muitas coisas que não têm preço, mas têm valor. A grande maioria dos recursos naturais, inclusive os providos pelo oceano, se enquadra nisso: a qualidade do ar e da água, a beleza cênica, a estabilidade climática e mais uma gama de outros serviços ecossistêmicos possuem grande importância (logo, valor), mas não têm preços de mercado.
Outros recursos, como pescado e produtos da extração de recursos naturais, podem até receber um preço de mercado. Mas esse preço está longe de refletir plenamente seu valor, pois o mercado “falha” em captar todos os custos envolvidos em sua produção: a pesca de cardumes marinhos, que são produzidos gratuitamente pelos oceanos, envolve ganhos para os pescadores com a sua venda. As receitas dessa venda devem cobrir os custos privados em que o pescador incorreu para pescar (combustível, linha, iscas e outros insumos para a pesca), mas não se referem ao custo de “produzir” o peixe: nesse caso, o pescador está apenas “garimpando” um recurso que não é fruto da produção humana e, por isso, o preço de mercado está muito longe de refletir seu verdadeiro valor.
Isso também aplica para o oceano: não tem preço, mas tem muito valor. Mas como podemos saber quanto ele vale?
2. A valoração econômica do meio ambiente
A valoração econômica é uma forma de estabelecer métricas para a importância dos serviços ecossistêmicos da biodiversidade e de todo o patrimônio natural. O ponto de partida é admitir que existem múltiplas dimensões do valor, e que boa parte desses valores não recebe um preço de mercado. Assim, para se compreender a completa importância de um bem, é preciso considerar seu valor econômico total, que os economistas subdividem em categorias: valores de uso, que podem ser diretos, indiretos, de opção e quase-opção, e valores de não-uso.
É impossível medir todos esses valores conjuntamente. Por essa razão, a Economia do Meio Ambiente disponibiliza técnicas específicas para lidar com subconjuntos de valores. Consequentemente, os resultados dos exercícios de valoração devem ser interpretados sempre como subestimativas, mostrando que esses recursos valem, ao menos, um certo patamar mínimo.
A valoração ambiental utiliza diversas técnicas para tentar medir a importância desses serviços ecossistêmicos em unidades monetárias de modo a torná-la comparável à dos bens produzidos pela atividade humana. A literatura sobre o tema tem apresentado avanços significativos em áreas continentais, principalmente na avaliação de impactos de projetos que não costumam ser monetizados, como a poluição do ar ou da água ocasionadas por projetos de infraestrutura, e a importância socioeconômica de áreas protegidas. Um exemplo disso é a valoração dos benefícios econômicos das Unidades de Conservação.²
Contudo, ainda estamos longe de obter medidas da importância econômica de um conjunto grande de elementos providos gratuitamente pela natureza, como a biodiversidade e outros serviços ecossistêmicos (polinização, controle de pragas, etc.).
O uso de técnicas de valoração econômica para medir a importância do oceano é ainda muito incipiente e o número de estudos bastante inferior aos de áreas terrestres, apesar do oceano cobrir a maior parte da superfície da Terra.
3. Valores de uso direto
Valores de uso direto ocorrem quando pessoas ou empresas aproveitam-se diretamente de recursos ambientais, seja quando há extração, visitação, ou outra forma de atividade produtiva que efetue uso, usufruto ou consumo direto. Isso significa que valores de uso direto são benefícios percebidos no presente, mas podem envolver formas não-sustentáveis de exploração que comprometem a sustentabilidade futura da atividade por extinção ou por degradação.
Parte desses recursos recebe preço de mercado, mas isso está longe de ser o caso geral: o que atribui valor ao recurso é ter importância, e na maioria das vezes, o recurso ambiental não tem preço. Por exemplo, desfrutar da beleza cênica ou das amenidades de uma praja tem valor, independentemente se o acesso à praia é gratuito ou se há cobrança de entrada.
Alimentos e a questão da sustentabilidade
Uma das primeiras formas de valor de uso direto dos oceanos estabelecida pelas sociedades humanas foi a busca de alimentos. Diversas civilizações floresceram a partir dos recursos extraídos do mar em todas as partes do planeta. Presente em praticamente todas as culturas estabelecidas no litoral, o consumo de pescado sempre representou um elemento fundamental de segurança alimentar, tanto pela abundância quanto pela qualidade nutritiva: peixes e outros frutos do mar são importantes fontes de proteínas, cálcio, ácidos graxos insaturados e vitaminas, além de propiciar fácil digestão.
No caso do Brasil, a ocupação do litoral se deu desde os tempos iniciais da chegada humana. A evidência arqueológica deixada pelos povos dos sambaquis, formações constituídas por conchas de moluscos acumuladas por longo período de tempo, é datada de mais de seis mil anos atrás.⁴
Esses recursos continuaram sendo explorados pelas sucessivas ondas de ocupação indígena, com destaque para os povos de língua tupi que ocupavam grande parte do litoral brasileiro à época da chegada dos colonizadores portugueses. Não por coincidência, uma enorme quantidade de nomes hoje usados para descrever os peixes brasileiros tem origem tupi, como caranha, carapicu, baiacu, beijupirá, piraúna, etc.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) estimou que em 2018 foram capturados 84,4 milhões de toneladas de pescado no oceano, incluindo, além de peixes, crustáceos, moluscos e outros animais aquáticos, inclusive mamíferos.⁵
Mas há um problema fundamental na extração de recursos pesqueiros: não se pode tirar mais do que a natureza é capaz de repor. Infelizmente, grande parte da produção pesqueira hoje é obtida de forma insustentável, extraindo mais do que a capacidade natural de regeneração. Isso resulta em sucessivas crises de escassez do recurso por causa da sobrepesca. Essas crises podem ocorrer mesmo em espécies de grande abundância natural, como o bacalhau (Gadus morhua) do Atlântico Norte e a anchoveta peruana (Engraulis ringens).⁶
No Sudeste e Sul do Brasil, a pesca da sardinha-verdadeira (Sardinella brasiliensis) entrou em colapso nas últimas décadas por causa da forma predatória de extração do recurso.⁷
Os riscos são ainda maiores quando as espécies capturadas têm um ritmo mais lento de reprodução. Esse é o caso dos elasmobrânquios, subclasse de peixes cartilagíneos que inclui os tubarões e as raias. Esses animais estão atualmente sob grande pressão porque são abatidos a uma taxa bastante superior à sua capacidade natural de regeneração: são ovovíparos, ou seja, seu desenvolvimento embrionário ocorre em ovos que crescem dentro do corpo da mãe. Por isso, produzem um pequeno número de jovens bem desenvolvidos, ao invés de um grande número de jovens pouco desenvolvidos como os demais peixes. Logo, sofrem grande ameaça pelo excesso de pesca, e diversas espécies de tubarões e raias encontram-se ameaçadas de extinção.⁸
A sombra da extinção
O problema atual da sobrepesca não é diferente do que ocorreu no passado com a caça da baleia e outros mamíferos marinhos (especialmente focas), e também espécies terrestres. A ganância e ausência de limites e preocupação com a sustentabilidade desencadearam ciclos de predação desenfreada que resultaram no rápido declínio dessas espécies, inclusive com casos de extinção plena. Esses casos são graves porque representam futuros interrompidos, que não mais poderão ocorrer por causa de nossas ações passadas.
Vertebrados extintos são mais conhecidos porque são mais estudados: a lista inclui, por exemplo, Prototroctes oxyrhynchus, uma espécie de peixe nativa da Nova Zelândia que transitava entre água doce e salgada e que possivelmente sucumbiu por causa da introdução de trutas exóticas, com o agravante de só existir hoje outra espécie do mesmo gênero, nativa da Austrália. Pinguinus impennis, por sua vez, era uma espécie de alcídeo do Atlântico Norte que alcançava milhões de indivíduos, mas que foi caçada à extinção pela procura por ovos e penas, e era única em seu gênero.
O mesmo ocorreu com mamíferos marinhos caçados por sua carne, gordura ou pele, como Hydrodamalis gigas, um sirenídio próximo ao dugongo que habitava o Oceano Índico, e Neomonachus tropicalis, uma foca tropical do Caribe. Por vezes, a extinção ocorreu antes mesmo da descrição científica. Esse foi o caso de Neogale macrodon, uma espécie de mink da América do Norte extinta pela busca por peles.
Alguns autores argumentam que há uma tendência maior de extinção de animais de grande tamanho por causas humanas do que de indivíduos menores.⁹
De fato, há menos registros de extinções por causas antrópicas de invertebrados marinhos, e as relações com causas humanas são menos conhecidas, mas há também muito menos estudo sobre grupo, embora tenha um número muito maior de espécies. Por exemplo, a extinção de Lottia alveus, uma espécie de caracol marinho do Atlântico Norte Ocidental, está possivelmente associada a causas humanas. Além disso, mudanças climáticas, que são o resultado de ação antrópica, podem afetar muito mais espécies de menor porte, especialmente invertebrados,¹⁰ notadamente os corais.¹¹ Podem também indiretamente inúmeras outras espécies que dependem do ecossistema criado pelos corais para sua sobrevivência.¹²
Igualmente, nosso conhecimento sobre possíveis extinções de microrganismos é extremamente limitado. Portanto, a dimensão da perda que o uso direto de ontem e de hoje deixa para o amanhã é de difícil compreensão, especialmente se consideramos os futuros avanços científicos que ainda estão por vir. As seções seguintes tratam dessas outras formas de valor (uso indireto, opção e quase-opção, e de não-uso) cujo pleno dimensionamento só é possível se estendermos o tempo de análise para muito além do presente.
Aquicultura: solução e novos problemas
Uma maneira de se evitar a extinção das espécies com valor de uso humano é por meio da aquicultura, baseada no cultivo de organismos em meio aquático. Ao invés de simplesmente extrair o recurso, busca-se criá-lo de modo semelhante à maneira praticada em terra firme. A FAO estima que em 2018 a aquicultura em águas marinhas foi responsável pela produção de 30,8 milhões de toneladas de pescado.⁶
Apesar de sua capacidade de produzir sem exaurir o estoque da espécie, a aquicultura também não está isenta de problemas. A elevada concentração de animais nas áreas de criação pode trazer impactos às populações nativas por possível transmissão de doenças e parasitas. Também ocorrem problemas de poluição dos corpos hídricos onde as criações são estabelecidas por causa do excesso de nutrientes ou de matéria fecal devido ao grande número e à concentração de peixes cultivados. Além disso, os equipamentos usados na aquicultura também podem causar poluição, contaminação ou outros distúrbios. Se as espécies são exóticas à área onde são criadas, eventuais fugas e escapes podem resultar em sérios problemas às espécies nativas, visto que a introdução de espécies exóticas é a segunda maior causa de perda de biodiversidade, depois da perda de hábitats.
No caso do litoral brasileiro, o crescimento desordenado da criação de camarões exóticos em cativeiro (carcinicultura) causou muitos impactos aos ecossistemas onde foi implementada, principalmente nas regiões Norte e Nordeste.¹⁴ Vastas áreas de manguezais foram desmatadas, aumentou a contaminação da água e surgiram outros contratempos associados à instalação e operação dos tanques de criação e dos canais usados para levar água até eles ou receber seus resíduos. Também houve impactos sociais: se por um lado a atividade aumentou a renda e o emprego dos trabalhadores envolvidos, também resultou em alteração ou mesmo deslocamento de comunidades.
Navegação e Conectividade Global
Outro valor de uso do oceano para as sociedades humanas desde tempos bastante remotos é a mobilidade por meio da navegação. É impossível dissociar a dispersão humana pelo planeta sem a ajuda do oceano como meio de ligação entre todas as partes do planeta. Por essa razão, o próprio conceito de globalização construiu-se a partir do uso do oceano como plataforma de transporte visto que, de fato, ele é um só e conecta de forma contínua todos os continentes.
Ainda hoje, embora o transporte internacional de pessoas seja bem menor do que em tempos passados, a navegação oceânica é a principal forma de transporte de cargas entre os continentes. A Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (United Nations Conference on Trade and Development – UNCTAD) estimou que o comércio global transportado pelos mares foi de 10,65 bilhões de toneladas, ou cerca de 80% do volume mundial de cargas.¹⁵
Turismo e Lazer
Um valor de uso direto que tem crescido em importância é o turismo e lazer em áreas oceânicas. São múltiplas as possibilidades providas pelo mar como fonte de atividades recreativas, seja para as populações locais quanto para visitantes. O turismo como atividade econômica de rápida expansão é sempre ressaltado por seu papel na geração de emprego e renda. O setor foi fortemente afetado pela pandemia de Covid-19, mas os dados de 2022 apontam para uma recuperação bastante ágil.¹⁶
As modalidades de aproveitamento das áreas oceânicas para lazer e turismo são enormes: banho de mar, pesca, mergulho, esportes aquáticos e náuticos, viagens de cruzeiro e de curta duração. É importante frisar que muitas dessas atividades são também opções de entretenimento para populações locais, inclusive de baixa renda.
Contudo, como em outros tipos de uso, é importante evitar formas predatórias de visitação. O turismo pode ser diruptivo tanto com a natureza quanto com as populações locais. O aumento da pressão sobre recursos locais, a geração de resíduos e poluição, as alterações em padrões sociais, especialmente quando a visitação se dá em locais tradicionalmente isolados ou com elementos culturais distintos dos visitantes, são exemplos de situações negativas causadas pelo interesse individual que sobrepuja o interesse coletivo.
Fica claro, portanto, que, embora sem cobrar um centavo, o oceano provê uma enorme quantidade de bens e serviços de grande valor de uso para as sociedades humanas. Contudo nem sempre sabemos respeitar os limites para o aproveitamento sustentável desses recursos, e acabamos por desperdiçar boa parte do potencial dessa fonte preciosa de bem-estar e geração de renda e emprego para as sociedades humanas.
4. Valores de uso indireto
Valores de uso indireto ocorrem quando o benefício humano do recurso é derivado das funções ecossistêmicas que, indiretamente, influenciam o bem-estar ou a produção.¹⁷ São exemplos os benefícios que o ambiente presta à estabilidade climática ou a proteção que manguezais e corais fornecem às áreas costeiras.
Os efeitos das ações humanas sobre as funções ecossistêmicas podem ser percebidos no curto prazo, mas podem perdurar por muito tempo. Por isso, valores de uso indireto podem ser percebidos no curto prazo, mas seu pleno entendimento só se efetiva no futuro, como no caso já referido de ameaça de extinção de corais marinhos por causa das mudanças climáticas.
O conhecimento científico tem avançado crescentemente na identificação dos valores de uso indireto prestados pelo oceano. Já é antiga a compreensão da sua importância para regulação de microclimas e amenização de temperaturas extremas. A maritimidade é a capacidade do oceano de conservar calor por um período maior que as áreas continentais, e isso influencia o clima das regiões costeiras, que têm uma variação de temperatura menor do que nas áreas continentais adjacentes.
Esse efeito é ainda mais acentuado pelas correntes marinhas. Elas circulam as águas do oceano, e com isso, contribuem para a regulação do clima e distribuição do calor pelo planeta. Isso tem efeito extraordinariamente significativo para a vida tanto no mar quanto na terra. A compreensão da relevância desse efeito regulatório fica nítida quando há uma irregularidade ou alteração dos padrões normais das correntes. O exemplo mais claro se dá quando ocorre alteração da temperatura nas águas do Pacífico Sul, próximas ao continente americano, seja por estar mais quente ou mais frio do que o normal. O primeiro caso é conhecido como o fenômeno “El Niño” e o segundo como “La Niña”, e ambos podem trazer efeitos catastróficos na América do Sul e todo o Pacífico Equatorial, como secas extremas ou inundações e enchentes.
O papel do oceano como o grande regulador climático do planeta é ainda maior por causa da importância das algas marinhas para a absorção de carbono por meio da fotossíntese. Esse processo é crucial para a vida no planeta porque torna o oceano o maior absorvedor de dióxido de carbono (“carbon sink”) sendo, portanto, fundamental para a estabilidade climática global.
Esse mesmo processo garante a reciclagem de mais da metade do oxigênio na atmosfera da Terra. Por isso, o oceano é o seu verdadeiro pulmão. As florestas terrestres também são grandes produtoras de oxigênio por fotossíntese, mas, por outro lado, consomem igualmente grande quantidade de oxigênio pelo processo de respiração. Por isso, sua contribuição líquida para a reposição do oxigênio na atmosfera é muito menor do que a das algas marinhas.
Além de regular o clima e disponibilizar oxigênio na atmosfera, outro valor de uso indireto do oceano é como base da cadeia alimentar. A vida surgiu da água, e as cadeias tróficas oceânicas, envolvendo inúmeros organismos consumidores e decompositores, são fundamentais para ecossistemas marinhos e terrestres.
Contudo, a ação antrópica também coloca em risco esses valores de uso indireto, apesar de sua enorme importância. A emissão de poluentes e resíduos sólidos, inclusive microplásticos, degrada e ameaça a biodiversidade marinha.
Em uma escala mais ampla, as mudanças climáticas também representam grandes riscos pois trazem, entre outras ameaças, elevação do nível do mar, acidificação do oceano (com efeitos ainda por descobrir sobre impactos em correntes marinhas, biodiversidade e uma série de outras funções ecossistêmicas), e eventos extremos que podem ter enormes consequências socioeconômicas negativas para as comunidades humanas.
5. Valores de opção e quase-opção
Valores de opção referem-se a possíveis valores de uso direto e indireto hoje não plenamente aproveitados, mas que somente terão opção de uso no futuro se preservados no presente.¹⁸ Ou seja, trata-se do valor futuro do oceano se o aproveitarmos de forma racional, garantindo que nosso uso de hoje não prejudicará o uso de amanhã.
O oceano pode ser fonte sustentável de produção de alimentos, tanto pela pesca manejada quanto pela aquicultura. Para isso é fundamental a adoção de práticas sustentáveis de produção. Igualmente existe um espaço importante para atividades de visitação, lazer, esporte e recreação. Mas a expansão do turismo e entretenimento não pode resultar em degradação dos espaços naturais ou ruptura social das comunidades estabelecidas nas áreas que recebem os visitantes.
Um campo onde há grande potencial de expansão refere-se ao aproveitamento de fontes energéticas renováveis em áreas oceânicas. Já se produz hoje energia eólica em plataformas instaladas no mar, mas ainda abaixo do potencial. Além disso, há um grande esforço tecnológico para aproveitamento da energia de movimentação do mar, seja por correntes, marés ou ondas. Projetos em escala-piloto estão sendo implementados, mas espera-se que operações em larga escala se tornem frequentes em um futuro próximo.
Valores de quase-opção diferenciam-se de valores de opção porque tratam de possibilidades de valores futuros de uso mas com conhecimento que ainda não temos. Isto é, referem-se aos usos que poderemos fazer dos recursos ligados aos oceanos com avanços científicos e progresso técnico que ainda estão por serem descobertos.
As possibilidades são muito promissoras quando se considera as novidades mais recentes da ciência e as expectativas do que ainda está por surgir. Conhecemos ainda muito pouco sobre o oceano, especialmente em águas profundas ou ambientes extremos, como vulcões submarinos. As frequentes descobertas de novas espécies mostram como ainda ignoramos a riqueza da biodiversidade marinha.
Ainda mais fascinante é a possível contribuição do conhecimento sobre o oceano para a compreensão de vida extraterrestre. A vida na Terra surgiu no oceano e as possibilidades de que haja vida alienígena são muito maiores em ambientes líquidos:¹⁹ há grande expectativa em função da descoberta de oceanos em Europa (lua de Júpiter com um oceano debaixo da superfície coberta de gelo), Titan (lua de Saturno com mares e rios de metano e outros hidrocarbonetos em estágio líquido) e Enceladus (outra lua de Saturno, onde se acredita existir um oceano de água salgada).
Por isso, as potenciais extinções causadas por ação antrópica, seja por sobre-uso, mudanças climáticas ou outras perturbações ao meio, podem resultar em danos imensos no futuro: estamos destruindo recursos naturais muito antes de compreender seu potencial de uso e, muitas vezes, sem nem mesmo classificar cientificamente as espécies.
Isso mostra o imenso valor da pesquisa sobre a vida oceânica em sua enorme diversidade, especialmente em ambiente não usuais (áreas sob gelo, de atividade vulcânica, etc.). É, simultaneamente, uma busca por compreender o passado da origem da vida na Terra, e também uma porta para o futuro da vida extraterrestre.
6. Valores de não uso ligados aos oceanos
Valores de não-uso são mais difíceis de conceituar porque representam o valor atribuído à existência do meio ambiente, ou de seu legado para futuras gerações, independentemente do seu uso atual ou futuro. Ou seja, refere-se ao valor intrínseco que as pessoas atribuem a certos recursos ambientais, como paisagens e seres vivos, sem que haja a expectativa de alguma forma de uso ou mesmo apreciação.²⁰ Os valores de não-uso combinam a importância do passado (relevância histórica, cultural, religiosa ou mesmo sentimental) com o que queremos deixar de legado para o futuro, mesmo que não se espere benefícios diretos ou indiretos de nossa ação de conservação.
O conceito de “valor de existência” ou “legado” é de difícil mensuração, mas essencial para explicar as escolhas das sociedades humanas. Isso inclui, além da importância científica da biodiversidade marinha, outros fatores que não podem ser justificados por interesses objetivos, diretos ou indiretos, mas que povoam nossas tradições, culturas e religiosidade.
O oceano é repleto de valores de existência e de legado dado seu evidente significado para as civilizações humanas.
O mar é carregado de significado cultural, que extrapola a exploração econômica por atividades produtivas e recreativas. O oceano é origem e é legado, em particular para sociedades, como a brasileira, que foram fortemente influenciadas pelas navegações e pelo extenso litoral.
Um exemplo disso é o relevante valor simbólico que as praias têm no Rio de Janeiro, na Bahia e em outros estados litorâneos. Além dos valores de uso direto pela recreação da população local e pelo impacto comercial dos turistas, as praias trazem valores intrínsecos de definição cultural e do estilo de vida das pessoas, e isso se reflete nas manifestações artísticas (desde canções e romances sobre o mar até as pinturas de barcos e paisagens costeiras), nas relações sociais (a praia como espaço coletivo de convívio) e em outros elementos do cotidiano.
O valor de existência do oceano é ainda mais facilmente identificado por sua importância nas mais diversas formas de religiosidade. De Poseidon a Iemanjá, passando pelos mitos de sereias e monstros marinhos, o culto a entidades divinas ligadas ao mar foi e é observado por todo o planeta.
7. Conclusão
A vida na Terra só é possível por causa da presença magnífica do oceano. Ele influencia todas as dimensões de nossa vida, inclusive a econômica e a cultural. Os exemplos descritos neste capítulo buscam evidenciar que uma parte enorme da atividade produtiva e da qualidade de vida humana é fruto da presença do oceano. Ainda maior é a riqueza do que desconhecemos. Contudo, persistem ações predatórias sobre o oceano e seus espaços naturais, que geram um pouco de benefício privado às custas de um prejuízo muito maior, difuso por toda a sociedade planetária.
Por isso, o oceano vale muito mais do que os benefícios monetários alcançados por aqueles que atuam na sua degradação. Mas também é importante dizer que nem todos os valores do oceano são passíveis de mensuração.
O oceano é o ontem, o hoje e o amanhã da vida na Terra. Foi sua origem, e a vida como atualmente a conhecemos só persiste por causa dos mares e das funções ecossistêmicas que prestam. Só poderá haver um futuro para nós, depois de exaurirmos as possibilidades de vida em nosso planeta, mediante alguma hipotética migração interplanetária para outro corpo cósmico onde encontremos corpos líquidos similares ao oceano.
Não é à toa que chamamos a Terra de “Planeta Azul”.
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