Ecoar Futuros

O tempo de transição antropocênico

Por Marco Dalpozzo
Idealizador do Grupo e*

Vivemos um tempo em que a humanidade se reconhece como força geológica. Essa constatação, aparentemente abstrata, é uma das mais profundas revoluções cognitivas da história moderna. Desde que Paul Crutzen e Eugene Stoermer propuseram o termo Antropoceno, no início dos anos 2000, para designar a era em que as atividades humanas passaram a modificar de forma irreversível os sistemas terrestres, tornou-se impossível pensar o futuro sem considerar a Terra como organismo vivo — e a espécie humana como parte e agente desse organismo.

A palavra Antropoceno não é apenas uma categoria científica; é um diagnóstico ético e civilizatório.
Pela primeira vez, a humanidade é confrontada com sua própria potência transformadora, com sua capacidade de alterar o curso do clima, dos oceanos, dos ventos e da biodiversidade. Essa nova consciência, porém, chega em meio a uma era paradoxal: enquanto ampliamos o poder técnico, reduzimos o poder de sentido. A aceleração informacional e tecnológica não é acompanhada por uma aceleração moral ou espiritual equivalente.

A civilização industrial, fundada na lógica do crescimento ilimitado, revelou-se incompatível com a finitude planetária. O modelo de produção que transformou a natureza em recurso e o trabalho em mercadoria começa a ruir sob o peso de seus próprios efeitos colaterais: aquecimento global, colapso de ecossistemas, desigualdade extrema e crise de sentido.

Ao mesmo tempo, a humanidade atravessa uma revolução tecnológica sem precedentes. A inteligência artificial, a biotecnologia e a automação estão remodelando o que significa ser humano. Os algoritmos aprendem, criam, tomam decisões. A fronteira entre o natural e o artificial se dissolve — exatamente como pressentiu Michelangelo Pistoletto ao propor o símbolo do Terceiro Paraíso, um ponto de reconciliação entre a natureza e o artifício. Essa metáfora resume a encruzilhada em que nos encontramos: não se trata apenas de sobreviver, mas de reinventar o modo de coexistir.

Nesse contexto, pensar os futuros possíveis não é um exercício de ficção científica, mas de responsabilidade. O futuro, como lembrava Ernst Bloch, é “um espaço de esperança ativa”. A esperança, para Bloch, não é espera, mas ação projetada; é a imaginação que se compromete com o real.
Assim, “futuro possível” é tudo aquilo que pode nascer da conjunção entre imaginação e ação, entre consciência e projeto.

O desafio contemporâneo é integrar três dimensões que historicamente caminharam separadas:

  1. Natureza, fonte e limite da vida;
  2. Tecnologia, extensão das capacidades humanas;
  3. Humanidade, consciência reflexiva que pode religar as duas anteriores.

A tensão entre essas forças define o século XXI.
De um lado, o risco de colapso ecológico e de desumanização tecnológica; de outro, a possibilidade de um salto civilizatório baseado na cooperação, na inteligência coletiva e na regeneração da Terra.

Essa tensão exige um novo olhar, que vá além do determinismo econômico ou do pessimismo apocalíptico. É aqui que emergem os pensadores da complexidade e da evolução — Edgar MorinTelmo PievaniGiuseppe VarchettaKarl WeickFábio ScaranoPaulo Vicente dos Santos AlvesCarlos Eduardo Frickmann Young e outros —, cada um oferecendo uma chave complementar para compreender e agir neste tempo de transição.

O presente ensaio pretende reunir essas vozes num mesmo horizonte de sentido, articulando ciência, filosofia, ecologia e economia em torno de uma pergunta essencial:

Como criar futuros possíveis em um planeta finito e interdependente?

Responder a essa pergunta requer não apenas políticas e tecnologias, mas uma revolução do olhar — uma transformação cognitiva e emocional comparável à que separou o homem pré-moderno do moderno.
Como propõe Morin (2020), é preciso “reformar o pensamento para reformar o mundo”.

O que está em jogo não é apenas o destino da Terra, mas o destino do próprio homo sapiens.
Se no passado a espécie dominou a natureza para sobreviver, agora precisa aprender a coexistir com ela para continuar a existir.

2. Fundamentos científicos e filosóficos dos futuros possíveis

A ciência contemporânea abandonou o sonho da certeza. Desde o século XX, a física quântica, a biologia evolutiva e as ciências da complexidade nos ensinaram que o mundo não é um relógio previsível, mas um sistema dinâmico, interdependente e emergente.
O universo, a vida e as sociedades humanas não seguem uma linearidade causal, mas constroem-se em meio a interações, rupturas e bifurcações. Esse é o ponto de partida para compreender os futuros possíveis: não existem linhas retas, mas redes que se reconfiguram.

O pensamento de Edgar Morin é a síntese mais clara dessa virada epistemológica.
Morin defende que todo conhecimento fragmentado é cego, e que compreender o real exige uma inteligência da ligação— a capacidade de religar o que o pensamento moderno separou: sujeito e objeto, razão e emoção, ciência e poesia.
pensamento complexo, conceito central em sua obra, é o reconhecimento de que o mundo não se reduz à soma de suas partes. A complexidade, para ele, não é confusão, mas tecido (complexus significa “o que é tecido junto”).
Morin insiste: “É preciso aprender a navegar na incerteza, porque a incerteza é a própria condição do futuro.”
Essa visão substitui a ideia de controle pela de co-evolução — uma dinâmica em que o ser humano age e é agido pelo meio, transforma e é transformado.

A filosofia evolutiva de Telmo Pievani complementa esse olhar.
Pievani sustenta que a vida é resultado de improvisação adaptativa. A evolução não é apenas seleção natural; é também criatividade natural. O acaso, o erro e a cooperação são forças produtivas.
Ele propõe uma noção de “evolução contingente”: a história da vida poderia ter sido diferente — e isso implica que o futuro também o pode ser.
A incerteza, portanto, não é falha do sistema, mas condição da liberdade da vida.
Nessa perspectiva, pensar futuros possíveis significa aceitar o imprevisto como aliado, não como ameaça.

No campo das ciências humanas e organizacionais, Giuseppe Varchetta e Karl Weick deslocam a atenção do controle para o sentido.
Varchetta, psicossociólogo italiano, cunhou a expressão novo humanismo organizativo. Ele entende as organizações não como máquinas de eficiência, mas como organismos vivos, espaços simbólicos onde o trabalho é também forma de autoconhecimento.
Ao defender a formação pela experiência, Varchetta aproxima a pedagogia da estética: aprender é interpretar, narrar, transformar-se.
Suas reflexões ecoam em ambientes empresariais e institucionais que buscam equilibrar desempenho e humanidade — um tema crucial num mundo em que a automação ameaça o sentido do trabalho.

Já Karl Weick, teórico norte-americano das organizações, oferece uma chave cognitiva complementar.
Em Sensemaking in Organizations (1995), ele afirma que as pessoas não reagem ao mundo como ele é, mas ao mundo que conseguem interpretar.
As organizações, portanto, são sistemas de sentido — arenas de construção simbólica onde se transforma ambiguidade em direção, caos em ordem interpretada.
Essa ideia é profundamente contemporânea: no contexto de inteligência artificial e fluxos informacionais, o sentido torna-se o recurso mais escasso.
Como observou Weick, “a realidade é continuamente construída no diálogo”. O futuro das organizações — e das sociedades — dependerá da capacidade de manter conversas significativas em meio à avalanche de dados.

Esses pensadores convergem num ponto: a ciência e a cultura precisam reconciliar-se com a vida.
É nesse ponto que entra o biólogo e ecólogo brasileiro Fábio Scarano, cuja obra atualiza o conceito de Gaia — o planeta como sistema vivo — com o que ele chama de ecologia da reconciliação.
Para Scarano, conservar já não basta: é necessário reintegrar o humano ao natural, restaurando ecossistemas e, ao mesmo tempo, vínculos afetivos e éticos com a natureza.
Em Regenerantes de Gaia (2018), ele argumenta que a restauração ambiental é também espiritual — um reencontro entre espécies e tempos.
Essa abordagem liga ciência e ética, e propõe um novo tipo de economia ecológica: uma que valoriza o cuidado como valor central.

No campo da estratégia e da geopolítica, Paulo Vicente amplia a reflexão para o nível civilizatório.
Em Futuros Possíveis: O Mundo em 2100 (2021), ele descreve os megavetores que moldarão o planeta — energia, tecnologia, demografia e clima — e alerta: as nações que não souberem antecipar transformações estarão condenadas à irrelevância.
Para Paulo Vicente, o Brasil tem a oportunidade histórica de se posicionar como potência da sustentabilidade: não por riqueza bélica ou industrial, mas por seu capital natural, social e cultural.
A estratégia de futuro, diz ele, não é previsão, é preparação: “planejar futuros é expandir o campo do possível”.

Essa transição exige também um novo modelo econômico.
O economista Carlos Eduardo Frickmann, da UFRJ, propõe a economia ecológica como substituta da economia neoclássica.
Enquanto o modelo tradicional parte da escassez de recursos e da maximização do lucro, a economia ecológica parte da finitude dos sistemas naturais e da justiça distributiva.
Frickmann Young defende que o PIB não mede prosperidade, pois ignora as perdas ecológicas e o bem-estar social.
Ele propõe indicadores de “valor vivo”, baseados na regeneração dos ecossistemas e na qualidade das relações humanas.
Sua tese é clara: a economia deve ser uma ferramenta da vida, não o contrário.

Por fim, Michelangelo Pistoletto traduz em linguagem artística e simbólica a síntese de todas essas visões.
O seu Terceiro Paraíso — um símbolo formado por três círculos interligados, onde o centro representa o equilíbrio entre o natural e o artificial — é mais que metáfora; é programa ético e estético.
Pistoletto vê a arte como ato civilizatório: ela cria pontes entre ciência, política e espiritualidade, e ensina o ser humano a imaginar mundos possíveis.
Em Biella, na Cittadellarte, ele promove o que chama de “arte responsável” — um modo de intervir no real unindo beleza, sustentabilidade e consciência.

O fio condutor entre esses autores é a recusa ao dualismo.
Todos, de formas distintas, buscam reconciliar opostos: razão e emoção, teoria e prática, humano e natureza, tecnologia e ética.
Daí nasce a ideia de futuros possíveis — futuros que não negam a incerteza, mas a transformam em potência criativa.

3. Cenários possíveis — Colapso, adaptação e regeneração

O futuro não é um destino fixo: é um campo de bifurcações.
A humanidade encontra-se diante de uma encruzilhada planetária, onde as escolhas políticas, econômicas e culturais das próximas décadas determinarão não apenas o tipo de sociedade que teremos, mas o próprio equilíbrio dos sistemas vivos.

Os relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática), do MIT, do Potsdam Institute for Climate Impact Research e de organismos internacionais como a ONU Meio Ambiente convergem num ponto: os próximos cinquenta anos definirão os próximos mil.
Os cientistas descrevem múltiplos futuros possíveis, mas três grandes trajetórias emergem como paradigmas civilizatórios: colapsoadaptação e regeneração.

3.1 Cenário do Colapso — A entropia da civilização

O primeiro cenário é o da entropia total: a aceleração das mudanças climáticas, a perda de biodiversidade e a exaustão dos ecossistemas superam os pontos de reversão.
O aquecimento global ultrapassa os 2,5 °C; florestas tropicais, como a Amazônia, deixam de capturar carbono e passam a emiti-lo; os oceanos perdem capacidade de absorção de calor; e a escassez de água torna-se crônica em vastas regiões.

As consequências humanas são igualmente dramáticas: deslocamentos populacionais em massa, conflitos por recursos, colapso de infraestrutura e aumento das desigualdades.
A tecnologia, nesse contexto, não atua como aliada, mas como amplificadora do controle e da desigualdade — um capitalismo algorítmico, nas palavras de Shoshana Zuboff (2019), onde o dado humano é convertido em mercadoria.

Esse cenário é a realização da advertência de James Lovelock: “A vingança de Gaia” — o planeta respondendo aos excessos humanos.
Não se trata de punição metafísica, mas de consequência sistêmica: a Terra busca um novo equilíbrio térmico e energético, e o faz independentemente da sobrevivência da civilização.
Do ponto de vista civilizatório, é o colapso da ideia de progresso contínuo e do mito de que a tecnologia resolveria tudo.
O futuro torna-se um espelho da incapacidade humana de reconhecer limites.

3.2 Cenário da Adaptação — A sobrevivência adaptativa

O segundo cenário é o da adaptação pragmática.
Aqui, a humanidade reconhece a crise, mas responde a ela de forma incremental, sem alterar seus fundamentos estruturais.
Desenvolvem-se tecnologias de contenção — geoengenharia, agricultura vertical, cidades inteligentes e mecanismos de compensação de carbono —, mas o paradigma de crescimento e consumo permanece intocado.

Esse é o futuro do homo adaptatus, capaz de sobreviver, mas não de transformar-se.
A sociedade torna-se tecnicamente eficiente, mas espiritualmente empobrecida.
É o que Byung-Chul Han (2017) descreve como “sociedade da transparência”: um mundo hiperconectado, mas desprovido de profundidade, onde a aceleração substitui o sentido.

Os sistemas econômicos se ajustam à crise sem questionar sua lógica central.
A “economia verde”, embora necessária, é usada como correção cosmética: transforma a ecologia em nicho de mercado e perpetua a ilusão de crescimento ilimitado.
Nesse futuro, o ser humano adapta-se ao caos, mas o normaliza.
É um cenário de resiliência sem regeneração, onde a sobrevivência biológica substitui a evolução ética.

3.3 Cenário da Regeneração — O salto civilizatório

O terceiro cenário, mais difícil e exigente, é o da regeneração.
Nele, a humanidade compreende que a crise não é apenas ecológica, mas civilizatória — e que a resposta precisa ser integral: científica, ética, cultural e espiritual.

A regeneração parte do reconhecimento de que os sistemas vivos, quando deixados a si mesmos, tendem ao equilíbrio.
A Terra tem memória e capacidade de cura.
Cabe ao ser humano não apenas “proteger” o planeta, mas reaprender a participar de sua inteligência.

Aqui, a tecnologia é usada como extensão da vida, não como instrumento de dominação.
A biotecnologia se alia à restauração ambiental; a inteligência artificial torna-se ferramenta de monitoramento ecológico e de redistribuição eficiente de recursos; a economia reorganiza-se em torno de circuitos locais e circulares; e a cultura abraça a diversidade como fonte de inovação.

Esse é o futuro defendido por Fábio ScaranoCarlos Eduardo Frickmann e Paulo Vicente
Scarano fala em reconciliação ecológica: o reencontro entre humanidade e natureza como condição de sobrevivência.
Frickmann Young propõe a economia ecológica, na qual prosperidade significa equilíbrio, não expansão.
Paulo Vicente sugere o planejamento de futuros como prática política — preparar o Brasil para liderar o mundo na transição sustentável.

A regeneração também é estética e espiritual.
Michelangelo Pistoletto, com o símbolo do Terceiro Paraíso, dá forma a essa utopia concreta: a interseção entre o círculo da natureza e o círculo da tecnologia.
Esse ponto central é o espaço da humanidade reconciliada — o espaço do possível.

Edgar Morin chamaria esse horizonte de “via da metamorfose”: não destruição, mas transfiguração.
A regeneração é, portanto, uma mutação da consciência.
Como escreveu Morin (2020), “a humanidade é uma aventura incerta, mas não impossível”.

3.4 Interdependência entre os três cenários

Esses três caminhos — colapso, adaptação e regeneração — não são mutuamente excludentes.
Eles coexistem em diferentes escalas e geografias do planeta.
Enquanto algumas regiões já vivem o colapso (secas, guerras, migrações), outras ensaiam adaptações tecnológicas e algumas poucas experimentam a regeneração como projeto político e cultural.

O futuro, portanto, não será homogêneo, mas pluriversal — feito de contrastes e assimetrias.
A questão essencial não é prever qual cenário prevalecerá, mas qual narrativa será escolhida pela humanidade.
Pois, como lembra Karl Weick, “as pessoas agem nos mundos que elas mesmas constroem”.
E como complementa Varchetta, “as organizações são os lugares onde o futuro começa”.

O desafio civilizatório é escolher o enredo da regeneração — não como utopia ingênua, mas como estratégia de sobrevivência lúcida.

4. O novo humanismo e a complexidade organizativa

O século XXI inaugura um paradoxo: quanto mais cresce o poder humano sobre o mundo, mais evidente se torna a fragilidade da própria condição humana.
Vivemos cercados por tecnologias de comunicação, mas sofremos de isolamento; acumulamos dados, mas carecemos de sentido; expandimos fronteiras cognitivas, mas perdemos a capacidade de contemplar.
É nesse contexto que surge a necessidade de um novo humanismo — não como retorno ao passado, mas como reconfiguração da presença humana no planeta e nas organizações.

Edgar Morin chama essa transformação de reforma do pensamento.
Para ele, o humanismo moderno fracassou por separar o homem da natureza, a razão da emoção e o saber do agir.
O novo humanismo, ao contrário, deve unir as dimensões biológica, psicológica, social, cultural e espiritual da existência.
É o humanismo da relação, em oposição ao da separação.
Morin escreve:

“A missão do pensamento complexo é religar o que está separado, distinguir sem desunir, unir sem confundir.”
Essa frase resume o ethos dos futuros possíveis: reconectar o humano à teia da vida e à sua própria interioridade.

No campo das organizações e do trabalho, Giuseppe Varchetta desenvolve um humanismo paralelo, o humanismo organizativo.
Formado na tradição da psicossociologia italiana, Varchetta entende as instituições como espaços de produção simbólica, onde as pessoas buscam não apenas sustento, mas sentido.
Em Formazione e Narrazione (2014), ele escreve que “toda organização é uma história que precisa ser contada”.
Contar é compreender; compreender é transformar.
Assim, a formação não é apenas técnica, mas experiencial — o aprendizado que nasce do encontro entre biografia e contexto.
Varchetta propõe que as empresas do futuro deixem de ser “máquinas de desempenho” para se tornarem comunidades de aprendizagem, onde a eficiência coexista com a emoção e a vulnerabilidade.

Essa visão é reforçada por Karl Weick, cuja teoria do sensemaking (1995) tornou-se um marco nas ciências organizacionais.
Para Weick, as organizações não existem como estruturas objetivas, mas como processos contínuos de interpretação:

“As pessoas agem em mundos que elas mesmas constroem.”
Isso significa que o futuro organizacional depende da qualidade dos sentidos compartilhados.
Em tempos de crise climática e tecnológica, as instituições não podem mais limitar-se à gestão de recursos: devem produzir narrativas de sentido coletivo.
Weick diria que o verdadeiro papel da liderança não é prever o futuro, mas criar condições para que ele possa emergir.

O novo humanismo, portanto, não é apenas uma questão filosófica — é também organizacional e ética.
Como lembra Varchetta, “as organizações são lugares onde o humano se revela, se forma e se reinventa”.
Esse “humano organizativo” não é idealizado; é imperfeito, contraditório, mas criativo.
Ele aprende a lidar com a incerteza como matéria-prima, não como ameaça.

Na biologia e na filosofia da vida, Telmo Pievani reforça essa ideia ao mostrar que a evolução é processo de cooperação e improviso.
A vida não progride por planejamento, mas por adaptação criativa.
A espécie humana, ao longo de milhões de anos, sobreviveu não por força, mas por inteligência social — a capacidade de imaginar, cooperar e simbolizar.
Assim, o novo humanismo é também evolutivo: reconhece o erro e o acaso como oportunidades de aprendizado.
Como diz Pievani, “a incerteza é a mãe da inovação”.

Do ponto de vista ecológico, Fábio Scarano acrescenta uma dimensão essencial: o humanismo deve incluir o não humano.
Em Regenerantes de Gaia (2018), ele argumenta que o futuro da humanidade depende de uma “expansão da empatia” para além da espécie.
É o que ele chama de reconciliação ecológica — uma ética do pertencimento.
Nesse novo paradigma, o humano deixa de ser medida de todas as coisas e torna-se mediador entre formas de vida.
O amor, nesse contexto, não é sentimento abstrato, mas forma de inteligência planetária.

O economista Carlos Eduardo Frickmann e o estrategista Paulo Vicente traduzem esse humanismo em termos práticos.
Young afirma que não haverá futuro humano se a economia continuar a crescer às custas da ecologia.
Propõe substituir o PIB por indicadores de bem-estar ecológico e social.
Paulo Vicente, por sua vez, vê a cultura da sustentabilidade como projeto civilizatório, não apenas ambiental.
Seu pensamento une estratégia, ciência e ética, lembrando que o Brasil pode liderar um novo modelo de desenvolvimento — não competitivo, mas colaborativo.

A arte, por sua vez, fornece o imaginário capaz de sustentar essa metamorfose.
Michelangelo Pistoletto, ao desenhar o símbolo do Terceiro Paraíso, oferece mais do que uma metáfora: oferece um mapa ético.
O primeiro círculo representa a natureza; o segundo, a tecnologia; o terceiro, central, é o espaço do humano reconciliado — aquele que aprende a viver entre ambos.
A arte, para Pistoletto, é uma forma de política do espírito: cria as imagens pelas quais a sociedade se reinventa.

Em síntese, o novo humanismo é o fio que atravessa todas essas visões.
Ele recusa o antropocentrismo e o mecanicismo, substituindo-os por um biocentrismo relacional.
Nas palavras de Morin, “ser humano é ser terrestre”.
E ser terrestre, hoje, significa reconhecer-se como parte da mesma trama de vida que sustenta árvores, rios, ventos e algoritmos.

O futuro, sob essa ótica, será tanto mais sustentável quanto mais humano — e será tanto mais humano quanto mais souber integrar-se à Terra.

5. O Brasil como laboratório de futuros

O Brasil é mais que uma nação: é um bioma civilizatório.
Seu território, que abrange um terço das florestas tropicais do mundo e abriga a maior rede hidrográfica do planeta, representa uma síntese da complexidade terrestre.
Mas a sua força não reside apenas na natureza exuberante — está também na diversidade humana, cultural e simbólica que aqui se expressa.
Do encontro entre povos indígenas, africanos, europeus e orientais, nasceu um país que carrega em si a experiência da mistura, da improvisação criativa e da convivência entre diferenças.
Essa mestiçagem cultural é o que Edgar Morin chamaria de unitas multiplex — a unidade na diversidade.

Em tempos de globalização uniformizadora e crise ecológica, o Brasil pode oferecer ao mundo algo mais do que recursos naturais: pode oferecer um modelo de convivência.
A miscigenação, frequentemente vista como fragilidade, revela-se uma forma de inteligência evolutiva: a capacidade de integrar o diverso, de viver na fronteira.
O país é um “laboratório da complexidade”, um espaço onde a natureza ainda fala alto, e onde o humano, em sua pluralidade, ainda pode reinventar-se.

Do ponto de vista ambiental, o Brasil ocupa papel estratégico.
A Amazônia é o coração climático do planeta, e o Cerrado, o Pantanal e a Caatinga são biomas vitais para o equilíbrio dos fluxos de água e energia.
Contudo, este patrimônio encontra-se sob ameaça — o desmatamento, o garimpo e a expansão agroindustrial colocam o país no epicentro do drama ambiental global.
Ao mesmo tempo, essa crise oferece uma oportunidade histórica: transformar a vocação natural em liderança regenerativa.
Como destaca Paulo Vicente, “o Brasil tem o privilégio e a responsabilidade de ser o primeiro país pós-industrial antes mesmo de ter sido plenamente industrial”.
Ou seja, pode pular etapas, adotando um modelo baseado em energia limpa, agricultura regenerativa, turismo de experiência, educação ambiental e tecnologia social.

No campo econômico, as ideias de Carlos Eduardo Frickmann reforçam essa possibilidade.
Para ele, o desenvolvimento brasileiro precisa abandonar a obsessão pelo PIB e adotar uma economia ecológica, centrada no bem-estar e na preservação dos ecossistemas.
Young propõe indicadores que integrem valor natural e social, e uma política fiscal verde que premie a conservação e penalize a degradação.
Isso exigiria repensar profundamente a matriz de incentivos, deslocando o foco da extração para a regeneração.
Nas palavras do autor: “A economia do futuro será aquela capaz de produzir vida, não resíduos.”

A dimensão ética dessa transição está expressa na obra de Fábio Scarano, que propõe a ecologia da reconciliação como princípio nacional.
O Brasil, com sua biodiversidade e suas desigualdades, é o palco onde se pode experimentar essa reconciliação em escala planetária.
Scarano argumenta que “restaurar florestas é também restaurar relações humanas”.
A restauração ambiental e social são inseparáveis: regenerar a Terra é regenerar as comunidades que dela dependem.

O campo da arte e da cultura também oferece caminhos.
A arte brasileira, de Tarsila do Amaral a Ernesto Neto, sempre foi marcada pela fusão de corpo e paisagem, de mito e matéria.
Nesse sentido, a arte pode ser a mediadora entre natureza e tecnologia — o que Michelangelo Pistoletto chama de Terceiro Paraíso.
O próprio Grupo E*, com suas experiências de hospitalidade regenerativa no litoral do Ceará — Vila KalangoRancho do PeixeSurfinsemfim —, encarna essa proposta: unir energia eólica, mar, vento e poesia em uma nova forma de economia sensível.
Essas iniciativas traduzem, na prática, a visão de que a sustentabilidade não é apenas técnica, mas estética e relacional.
O vento que move o kite, a onda que sustenta o foil, o sol que alimenta a energia — são expressões de um mesmo princípio: a integração entre movimento humano e força natural.

Do ponto de vista educacional e social, essa transição requer o que Giuseppe Varchetta chama de formação pela experiência.
O Brasil precisa formar sujeitos capazes de pensar e sentir a complexidade, de articular o saber técnico ao saber simbólico.
Como observou Karl Weick, “as organizações são feitas de conversas que criam realidades”.
Da mesma forma, as nações são feitas de narrativas.
O Brasil precisa narrar-se como nação-regeneração, não como país do futuro, mas como país do presente regenerador.

Essa mudança narrativa é o verdadeiro motor dos futuros possíveis.
Mais do que infraestrutura, o país precisa de infraestrutura de sentido — uma cultura capaz de unir ética e beleza, economia e ecologia, ciência e mito.
Terra do Vento, o delta do Amazonas, o Cerrado e as metrópoles litorâneas são laboratórios dessa convergência: lugares onde o vento, o rio e o humano se encontram.
Em tais territórios, o Brasil pode demonstrar que desenvolvimento e preservação não são antagônicos, mas complementares.

Como observou Edgar Morin, “a via da humanidade será aquela que souber unir as forças da técnica com as forças do amor”.
O Brasil, com sua energia natural e afetiva, pode ser o terreno fértil dessa união.
Em um mundo fragmentado, ele representa o arquétipo da complexidade viva: imprevisível, diverso, múltiplo — mas profundamente conectado.
Por isso, talvez, o Brasil não precise apenas de políticas públicas, mas de poéticas públicas — uma linguagem capaz de inspirar o planeta a imaginar de novo.

6. Conclusão — Imaginação e esperança

Em meio à incerteza e à aceleração do século XXI, o maior risco não é o colapso ambiental nem o avanço tecnológico descontrolado — é o esgotamento da imaginação.
Quando deixamos de imaginar outros mundos possíveis, tornamo-nos prisioneiros do existente.
E é precisamente por isso que a imaginação se torna, hoje, um ato político e espiritual. Como ensinou Paulo Freire, a esperança não é esperar, é esperançar: verbo ativo que implica caminhar, agir, transformar.

Esperançar é mover-se com fé na potência do outro e do coletivo.

Assim como em sua Carta aos Romanos, São Paulo Apóstolo recordava que “a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações” (Rm 5,5).

Ernst Bloch, em O Princípio Esperança, escreveu que a esperança é a mais concreta das forças humanas.
Para ele, imaginar o futuro não é fugir do presente, mas ativar o inédito dentro do real.
A esperança, nesse sentido, não é passiva — é projeto.
Ela nasce do inconformismo, da recusa em aceitar o mundo tal como é.
E o ensaio que aqui se conclui é, no fundo, um convite à esperança lúcida: uma esperança informada pela ciência, guiada pela ética e alimentada pela arte.

Os desafios que se colocam diante da humanidade — aquecimento global, desigualdade, automação, solidão digital — não podem ser enfrentados apenas com tecnologia.
Como lembram Morin e Varchetta, é preciso restaurar o laço humano, o tecido relacional que sustenta toda comunidade viva.
Sem ele, qualquer inovação será vazia.
O futuro pertence não a quem domina os algoritmos, mas a quem compreende o sentido da cooperação.

Essa cooperação não é apenas social, é ecológica.
Fábio Scarano propõe que o ser humano recupere a humildade de pertencer, e não de dominar.
A “ecologia da reconciliação” implica reconhecer que cada ação humana — plantar, construir, criar, consumir — é também um gesto cósmico, uma intervenção na vida da Terra.
Carlos Eduardo Frickmann traduz essa consciência em termos econômicos: prosperar é regenerar.
Paulo Vicente lembra que planejar o futuro é preparar-se para o imprevisível, não tentar controlá-lo.

Mas, como ensinou Telmo Pievani, a vida é feita de improvisos criativos: cada mutação é uma aposta.
A própria história do planeta é uma sequência de acidentes férteis.
Talvez a humanidade esteja diante de mais um — um momento de colapso que, se bem interpretado, pode converter-se em mutação civilizatória.
Nesse sentido, a crise é também um laboratório: ela nos ensina que a esperança precisa ser ativa, artesanal, cotidiana.

A arte tem um papel decisivo nesse processo.
Michelangelo Pistoletto, com o Terceiro Paraíso, oferece uma imagem síntese: dois círculos (natureza e artifício) unidos por um terceiro, o espaço do humano consciente.
Esse espaço é o da criação, da ética e da imaginação.
É nele que a aventura humana pode reencontrar sua dignidade.
Como escreveu Marco Dalpozzo, “a aventura é um modo de dizer sim ao mundo” — e talvez este seja o gesto mais urgente do nosso tempo: voltar a dizer sim, mesmo sob a sombra das incertezas.

Dizer “sim” não é ingenuidade.
É um ato de coragem — o sim que move o pesquisador, o artista, o agricultor, o empreendedor, o educador, o navegante.
O sim que funda a cultura e que sustenta a travessia.
O sim que reconhece a beleza como forma de conhecimento.

Em um planeta saturado de dados e de medo, o que mais precisamos é de narrativas que unam: unir ciência e poesia, unir tecnologia e natureza, unir progresso e compaixão.
Esse é o horizonte dos futuros possíveis.
Não um futuro único e linear, mas uma constelação de caminhos que se entrecruzam.
O futuro não será dado, será co-criado — pela convergência de mentes, corações e ecossistemas.

Como ensinou Edgar Morin, “a metamorfose da humanidade já começou, mas ainda não sabemos se ela será vital ou fatal”.
Tudo dependerá da nossa capacidade de imaginar e de agir em sintonia com a Terra.

No fim, pensar em futuros possíveis é reconhecer que não há fronteira entre o humano e o planetário, entre o individual e o coletivo, entre o visível e o simbólico.
É compreender que cada gesto — plantar uma árvore, ensinar uma criança, velejar com o vento, escrever uma carta — pode ser uma semente do mundo que ainda não existe.

E se o futuro é incerto, tanto melhor.
Pois é no incerto que reside a liberdade da criação.
A imaginação, a esperança e o amor pela Terra são, afinal, os motores de toda regeneração.

Bibliografia comentada

O termo Antropoceno foi popularizado por Paul Crutzen (2000) e designa a nova era geológica marcada pela influência humana sobre os sistemas planetários. 

BLOCH, Ernst. O princípio esperança. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005.

Clássico da filosofia da utopia, Bloch vê a esperança como força concreta de transformação histórica — fundamento ético dos “futuros possíveis”.

FRICKMANN YOUNG, Carlos Eduardo. Economia ecológica e políticas públicas para o desenvolvimento sustentável. Rio de Janeiro: UFRJ, 2012.

Referência central da economia ambiental brasileira. Defende que o crescimento deve subordinar-se à ecologia e à justiça social, base conceitual para o paradigma da regeneração.

HARARI, Yuval Noah. Homo Deus: uma breve história do amanhã. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

Analisa o avanço biotecnológico e a possibilidade de o ser humano tornar-se criador da própria evolução — um dos riscos e fascínios do futuro pós-humano.

HARAWAY, Donna. Seguir com o problema: gerar parentesco no Chthuluceno. São Paulo: n-1 Edições, 2020.

Propõe a convivência ativa com as crises planetárias e o reconhecimento da interdependência entre espécies — ética do “cuidar com”.

LOVELOK, James. A vingança de Gaia. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2006.

Atualiza a hipótese Gaia: o planeta como um sistema vivo autorregulado, cuja sobrevivência exige uma mudança radical da consciência humana.

MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.

Introduz o paradigma da complexidade: religar saberes fragmentados e recuperar a ligação entre ciência, arte, ética e vida.

MORIN, Edgar. O caminho: para o futuro da humanidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2020.

Síntese tardia do pensamento moriniano. Defende um novo humanismo planetário e ecológico.

PAULO VICENTE DOS SANTOS ALVES. Futuros Possíveis: o mundo em 2100. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2021.

Obra pioneira brasileira sobre cenários de longo prazo. Analisa megatendências tecnológicas, geopolíticas e climáticas, propondo uma estratégia de adaptação e liderança para o Brasil.

PIEVANI, Telmo. A natureza fora do lugar: ensaios sobre evolução e diversidade. Milano: Raffaello Cortina, 2019.

Mostra a evolução como processo não linear e criativo. Inspira a ideia de que a incerteza é motor da vida — e do futuro.

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