Ecoar Vento

Sonhos de telepatia e ócio

Por Fabio Rubio Scarano
Titular da Cátedra Unesco de Alfabetização em Futuros do Museu do Amanhã e Professor Titular de Ecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Um personagem suspeito

Não me utilizo de redes sociais nem do ChatGPT, o que me torna no mínimo um personagem suspeito para refletir sobre um tempo no qual o digital é um imperativo. Entretanto, peço licença às leitoras e aos leitores deste texto para fazê-lo, por sentir que tenho alguma legitimidade.

Digo isso por dois motivos. Em primeiro lugar, por não ser um absoluto iletrado digital. Aprendi a desfrutar do YouTube, especialmente de músicas e filmes que me são caros, bem como de diversos portais de busca e de acesso livre ou comercial de artigos científicos e livros. Alguns desses canais propagam até textos e vídeos meus, por vezes mesmo sem que eu saiba, o que eu acho bom. Já aprendi até que meu celular sabe o que gosto de ler no noticiário quando acordo: futebol, cinema e horóscopo. Me utilizo também do WhatsApp e do correio eletrônico, porém, preciso revelar que a relação com esses dois nem sempre se dá de forma prazerosa (já tenho planos ambiciosos para reverter esse quadro!).

Em segundo lugar, ainda que estrangeiro ao amplo universo das ferramentas digitais, eu as admiro. Decerto, mais pelo potencial que vejo nelas do que por seu uso contemporâneo. Minha admiração tem uma curiosa relação com o tempo, por envolver um misto de nostalgia por leituras do passado, com sonhos acerca de estados futuros de bem-estar planetário.

De um lado, a digitalização me remete ao jesuíta, filósofo francês e otimista inveterado Teilhard de Chardin. Em meados do século passado, de Chardin dizia que o rádio e a televisão tinham o potencial de nos conectar de tal forma, que talvez anteciparam o advento do misterioso poder da telepatia entre humanos, quem sabe vindo a gerar uma espécie de consciência universal.

De outro, admiro o digital e o tecnológico também pela possibilidade de propiciar futuros nos quais todos possam trabalhar menos e viver mais e melhor, como Bertrand Russell já dizia ser possível com a tecnologia disponível em 1932! Sempre me pergunto o que de Chardin diria se tivesse visto a internet, e o que Russell acharia da inteligência artificial.

Não só não realizamos esses potenciais, mas parece que andamos no sentido contrário a eles. O mundo virtual parece distribuir mais discórdia que harmonia e, ao invés de reduzir nossa carga e jornada de trabalho, a multiplica. Seria fácil botar a culpa nesse homem branco de meia-idade chamado capitalismo, mas tenho para mim que o capitalismo também é uma tecnologia. Tal qual os computadores, a internet, as redes sociais e a inteligência artificial, o capitalismo é operado por pessoas. Como dizia Heidegger, se não usamos a tecnologia para promover um mundo melhor, é porque ainda não percebemos a sua essência. O problema, creio, é nossa própria espécie.

Mas voltemos às duas possibilidades que me seduzem quando penso no tecnológico e no digital: a telepatia e o ócio.

Associo a telepatia à capacidade do amor sem palavras, da comunhão, do entendimento, da compreensão e da confiança entre seres. Minha perspectiva sobre o ócio é como a de Russell: o tempo livre junto a pessoas queridas, à natureza, ou em alegre e reflexiva solitude, nos eleva, inspira, renova. Associo o ócio à paz.

Vejo no digital, tecnológico, virtual, veículos para a paz e o amor, mas não creio que encontremos esses sentimentos desejáveis “dentro” dessas máquinas. Não aposto em achar nem paz nem amor no mundo digital ou virtual, mas esse mundo em tese poderia me fazer ganhar tempo para eu poder achar a paz e o amor no mundo natural. Contudo, não o faz porque, como sociedade, não o usamos como meio, mas como fim.

Em reflexão, acho que talvez seja isso que me leva a não dedicar tempo hoje a ingressar nessas ferramentas e lidar com elas. Leitora, leitor, note, por favor, que, de forma alguma, isso é uma recomendação para você abandonar suas redes. É mais uma admissão de covardia minha, ou preguiça, ou medo até. Eu deveria, talvez, mergulhar nesse mundo virtual e tentar ajudá-lo a nos ajudar, e a me ajudar, a encontrar nossos caminhos de paz e amor — como humildemente tento fazer no mundo natural. Quem sabe desenvolvendo este texto eu me anime?

Os dois imperativos dos tempos pós-normais

Meu objetivo aqui, então, é discutir como percebo a relação do digital e do virtual com a paz e o amor. Para isso, sinto que é necessário tratar também de dois outros conceitos complexos: o tempo e a realidade.

Vivemos em tempos de “pós-tudo”. Pós-verdade, pós-humano, pós-moderno, pós-desenvolvimento e outros “pós” parecem criar uma cerca ao redor de uma dada parte da realidade e a rotular como algo passado. Recorrer a este prefixo se tornou cada vez mais comum, especialmente a partir da publicação, em 1979, do livro La Condition Postmoderne, de Jean-François Lyotard (1924-1998). O “pós” sugere transição em direção a algo que ainda é desconhecido, ou mesmo incerteza na descrição de uma situação presente. Seu uso, portanto, remete a uma certa indefinição ou imprecisão temporal.

Para alguns, atravessamos um tempo “pós-normal”. O termo, cunhado pelos filósofos Silvio Funtowicz e Jerome Ravetz em 1991, diz respeito a tempos de transição em direção a um futuro desconhecido e que são marcados por caos, contradições e complexidade. Estes autores ainda afirmam que, em tais tempos, os fatos são incertos, os valores estão em disputa, os interesses são altos e as decisões urgentes.

A condição pós-normal é como nós experimentamos as mudanças que se desenrolam ao longo do tempo pós-normal que, por sua vez, é concomitante com a emergência e a onipresença da cultura digital. Tal cultura tornou a digitalização um imperativo.

Em paralelo, este tempo é marcado também pela contradição que representa a incompatibilidade entre a nossa busca por conforto material e as consequências socioecológicas disto vir a ser alcançado por uma parte ou por toda a humanidade. Dessa contradição emerge o imperativo da sustentabilidade.

Os dois imperativos — o da digitalização e o da sustentabilidade — possuem contornos de valor e ética, ao mesmo tempo que se fazem presentes na política e na ciência. Entretanto, apresentam também as suas próprias contradições internas.

A visão hegemônica moderna assume a sustentabilidade como sendo um ponto de chegada de um determinado tipo de desenvolvimento, isto é, trata a sustentabilidade como “desenvolvimento sustentável”. Ao encampar premissas capitalistas, o desenvolvimento sustentável contrasta com visões não desenvolvimentistas ou de “pós-desenvolvimento” (mais um “pós”), sejam elas de origem tradicional (buen vivir, ubuntu, tekó porã etc.) ou pós-moderna (ecofeminismo, ecossocialismo, decrescimento etc.).

No campo da digitalização, enquanto a internet, as redes sociais e a inteligência artificial têm demonstrado potencial democrático e emancipatório, respondem também pelo espalhamento de fake news, economia da atenção e formas extremistas de violência.

Contudo, os dois imperativos possuem também múltiplos pontos de convergência. Por um lado, uma digitalização efetiva pode ter impactos positivos sobre algumas das crises atuais, ao permitir redução na emissão de gases estufa por deslocamentos aéreos ou terrestres, ao facilitar mapeamento e manejo desde genes, até espécies e ecossistemas, ou ainda ao gerar sistemas de alarme que antecipam a ocorrência de desastres naturais e climáticos.

Por outro lado, atenção a aspectos de sustentabilidade individual incluem uso moderado e sensível de ferramentas digitais: a sustentabilidade nas relações sociais pode ser favorecida por um bom uso de ferramentas digitais e a sustentabilidade ambiental pode se beneficiar de compartilhamento democrático de dados e informações acerca do tema por meios digitais.

Talvez caiba a pergunta: pode a biotecnosfera, com seus imperativos digitais e de sustentabilidade, funcionar de forma a dar origem a futuros de paz e amor?

Quando nos deparamos com mudanças climáticas, perda da biodiversidade, crise de refugiados, crise sanitária, insegurança alimentar e hídrica, nada leva a crer que a resposta para esta pergunta possa ser sim. Esses e outros sintomas do presente são megatendências para futuros nada auspiciosos. Futuros prováveis sufocam os futuros desejáveis. Bauman diagnosticou isso como “fim do futuro”, uma atrofia na nossa capacidade de sonhar e imaginar futuros desejáveis. O presente coloniza o futuro. A imaginação padece.

A biotecnosfera e o pós-humano

Se o imperativo da sustentabilidade nos leva a refletir sobre a biosfera, o da digitalização evoca a tecnosfera. A tecnosfera emerge da biosfera, e essa esfera das coisas construídas pelo ser humano deverá, em breve, superar em peso o da biomassa natural viva. A noosfera, esfera da consciência e do conhecimento, também emerge da biosfera, e hoje é, em certa medida, armazenada e disseminada pelo componente digital da tecnosfera.

A analogia de Hub Zwart me parece assustadoramente adequada a este contexto: ele afirma que a internet é o sistema nervoso central da noosfera.

A internet, a inteligência artificial e outros recursos digitais são matéria abiótica transformada em sistemas de pensamento mecânicos com os quais a consciência humana se torna cada vez mais entrelaçada. A noosfera, portanto, se amplia: não é mais só uma propriedade que emerge da biosfera, mas é principalmente uma expressão da biotecnosfera. O sistema nervoso central da biotecnosfera é, ao menos em parte, digital, e é também o local de disputa de diferentes desejos.

A psicosfera do geógrafo Milton Santos (1926-2001) é a parte da noosfera relacionada ao território e, logo, à cultura. Para ele, é onde o sentido é produzido, uma esfera de ideias e ações intersubjetivas. Num dado território, a psicosfera é composta por uma racionalidade hegemônica e por racionalidades alternativas que disputam a tecnosfera, e é justamente desta disputa que futuros distintos podem emergir localmente e globalmente.

Tais racionalidades alternativas são uma forma de resistência à lógica hegemônica e ao uso puramente instrumental e voltado para o lucro da tecnologia. Por exemplo, notamos durante a pandemia uma onda de expansão digital de movimentos de sustentabilidade e resistência socioecológica que se contrapunha às forças hegemônicas modernas. Reflexo do horror imposto pela doença e também do cenário político no Brasil entre 2019 e 2022, as pessoas procuravam alternativas através de diálogos que agregassem visões múltiplas acerca da vida e da sustentabilidade. Esse exemplo reforça a necessidade de expansão da capacidade digital, que vai além de usar ferramentas e acessar mais fontes de informação, se voltando também para compreender uma sociedade cada vez mais algorítmica.

Os dois imperativos, portanto, são marcos da nossa condição pós-normal. São evidências de expansão de uma realidade anterior, que hoje, ao olharmos para trás, era a nossa referência de “normal” (mesmo que concordemos que não existe tal coisa quanto a normalidade).

Neste instante talvez caiba a pergunta: pode a biotecnosfera, com seus imperativos digitais e de sustentabilidade, funcionar de forma a dar origem a futuros de paz e amor?

Quando nos deparamos com mudanças climáticas, perda da biodiversidade, crise de refugiados, crise sanitária, insegurança alimentar e hídrica, nada leva a crer que a resposta para esta pergunta possa ser sim. Esses e outros sintomas do presente são megatendências para futuros nada auspiciosos. Futuros prováveis sufocam os futuros desejáveis. Bauman diagnosticou isso como “fim do futuro”, uma atrofia na nossa capacidade de sonhar e imaginar futuros desejáveis. O presente coloniza o futuro. A imaginação padece.

Como disse um dos personagens de Jean-Luc Godard no filme Adeus à linguagem (2014), quando não se tem imaginação, refugia-se na realidade. Mas o que é a realidade, afinal? Talvez seja mais fácil dizer o que ela não é. A realidade não é estática. Ela é inacabada e, como o universo, está em contínua expansão. O novo real brota de processos de inovação.

A inovação se dá até na evolução biológica. A fotossíntese talvez seja a maior inovação na história do universo, por ter permitido a expansão da diversidade biológica sobre o planeta. Entre seres humanos, a inovação não se dá quando alguém tem uma ideia brilhante ou cria o próximo software, mas quando o comportamento muda, quando a socioecologia se transforma.

Em direção ao novo normal, a inovação não estará nos novos aparatos digitais que venhamos a desenvolver, mas em como e para que os usaremos. Na nossa fusão com a tecnologia, já somos pós-humanos. Para que isso possa vir a ser uma boa notícia, ainda só depende de nós.

A ética do cuidado como utopia

O que procuramos no mundo virtual? Tiro pela minha pequena experiência nesse campo. Como mencionei anteriormente, tenho textos e vídeos nessas mídias. Cedo aprendi que há uma contabilidade de público, de quem gostou e quem não gostou, eventualmente há espaço até para críticas. Uma vez que meu parâmetro é a ciência especializada, na qual só quem o lê é também especialista no mesmo tema que você, qualquer uma ou duas dezenas de leitores ou espectadores nos veículos digitais já me deixava alegre! Hoje sei que isso é pouco.

Assim, há um certo tipo de recompensa instantânea, fugaz, no virtual, que se alimenta da esperança de se tornar perene. Daí suponho que, por um lado, muitos dos que usam essas ferramentas querem aumentar sua popularidade, ser notados, talvez ser amados. Seria uma expansão da ontologia da pessoa através de uma outra persona, um avatar digital, que serve como alternativa àquela persona “real”, cuja ontologia muitas vezes foi travada pelo massacre do presente.

Entretanto, na vontade de ser “diferente”, persiste o “igual”, como argumenta Byung-Chul Han. O sul-coreano radicado na Alemanha vai além e vê no “enxame digital” uma ânsia pelo espetáculo em que, quer seja do ponto de vista do exibidor ou do espectador, falta a distância que o respeito impõe. É como uma telepatia que deu errado por falta de amor. A falta de respeito, segue ele, leva ao escândalo, que por sua vez é o avesso da paz.

Mas sigo achando que estes aspectos negativos são reversíveis, baseado no outro imperativo, o da sustentabilidade.

Leonardo Boff nos lembra que essa palavra vem do latim “sustentare”, que significa cuidar. Sustentabilidade, mais que qualquer uma das “sopas de letrinhas” que o capitalismo inventou (como CSR e ESG), é uma ética fundamentada no cuidado consigo mesmo, com o próximo e com o mundo que nos cerca.

O tal “respeito”, ao qual Han se refere. Como vimos, a sustentabilidade hoje tornou-se um imperativo diante dos males causados pelo Antropoceno. Este imperativo, porém, está presente na psicosfera na forma de uma racionalidade hegemônica (a sustentabilidade como uma espécie de último suspiro do capitalismo, que se tornará rentável e lucrativa a quem aplicá-la) e de racionalidade alternativas (baseadas em visões não modernas do mundo, que abrem mão do crescimento econômico como premissa, e seguem minoritárias).

Se tal ética do cuidado é aplicada à digitalização, pode resultar na expansão de uma racionalidade alternativa, menos preocupada com lucro, poder e espetáculo, e mais voltada para um projeto de paz através de comunicação e uso democrático e amoroso.

Alguns irão, acertadamente, dizer que esta visão é “utópica”. É mesmo. Contudo, acho uma pena que o adjetivo venha sendo mais frequentemente atribuído à falta de pragmatismo ou a devaneios irreais ou surreais.

Utopia não é sobre o que funcionará, mas sobre uma alteridade radical, sobre transcender o mundo como o conhecemos e sobre confrontar o senso comum. É sobre expandir a ontologia do real. A utopia é emancipatória, concreta e aberta, na medida em que não está concluída, está em construção, como a vida e o próprio universo.

O futuro que combina sustentabilidade e digitalização a partir de uma ética do cuidado não é “um bom lugar” (eutopia) mas um “não-lugar” (outopia), ou seja, é uma bússola, uma orientação, um desejo. Para que o novo normal que emergirá no tecido inefável do tempo seja de bem-estar para todos os seres vivos e não-vivos, assim como para aqueles humanos e não-humanos que ainda virão a viver, precisamos de fato desejar. O desejo é nutrido pela imaginação e pela esperança ativa, a mesma que nos faz acordar a cada dia e atuar para que o mundo se torne melhor.

Palavra de precaução

Apesar da minha esperança de que a digitalização, e a tecnologia de modo geral, possam ganhar melhor uso, cabe atenção a um aspecto adicional.

O filósofo italiano Giorgio Agamben relembra que Gaia, a deusa grega da Terra, abrange o campo da vida, do solo à atmosfera. A viva, florida e luminosa superfície de Gaia, porém, contrasta com a escuridão e com o abissal subterrâneo, domínio de deusas e deuses ctônicos, mais sombrios.

Gaia hoje se vê com níveis sem precedentes de degradação e poluição justamente pelo fato de o ser humano extrair elementos e energia para suprir suas necessidades de consumo do subterrâneo ctônico. Agamben chama esta casa do petróleo e dos minérios de tanatosfera, a esfera dos mortos.

Na Amazônia, Davi Kopenawa Yanomami tem leitura análoga, e projeta que a exploração subterrânea pode implicar na queda do céu. Não é demais lembrar que a tecnologia digital é produzida a partir do que se extrai das profundezas ctônicas.

Assim, há que se cuidar e se respeitar as divindades ctônicas, assim como as terrestres e as celestiais — sejam das culturas que forem —, mesmo quando nossa busca for pelo amor e pela paz, ou pela boa telepatia e pelo bom ócio.

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